Mal-estar na civilização: pesquisador propõe reflexão sobre desmembramento da personalidade psíquica

A indestrutibilidade do psíquico é superestimada? Essa é pergunta do pesquisador François Villa, psicanalista, professor na Universidade de Paris Diderot e autor do estudo “Mal-estar na civilização e desastre totalirário”. Segundo o autor, os traços mnésicos são indestrutíveis, enquanto os processos e os destinos de seus produtos são destrutíveis. “O psíquico pode ser atingido pela destrutividade, pela do mundo e por aquela de que é portador”, ressalta.

O estudo destaca ainda que as condições de possibilidade do psíquico, das quais a cultura faz parte, podem ser destruídas ou alteradas, e questiona: “Não é incrível que demos seguimento à tarefa psicanalítica como se a onda da irrupção do terror e da barbárie na cultura não tivesse abalado as quatro paredes de nossos consultórios?”.

Segundo o autor, não apenas não chegamos a saber qual a extensão da transformação dos espíritos e das mentalidades sob os regimes totalitários, como também não sabemos até que ponto nosso espírito e nossa mentalidade são a descendência direta de tal transformação. “Essa transformação teria sido apenas transitória, efêmera?”, pergunta. “Será que vamos rejeitar sem hesitação a ideia de uma transformação irreversível e a hipótese de que a regressão que favoreceu a instauração do regime nazista tanto quanto a tornou possível, atingiu um ponto que favorece o retorno de alguma coisa que nunca tinha existido?”.

Atentando para a possibilidade de exagero desse questionamento, o autor sugere a reflexão acerca dos ideais culturais após o cataclismo que teve como consequência a decomposição e o desmembramento tanto do projeto civilizador quanto da personalidade psíquica.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog www.meunomenai.com

Impasses da atuação de psicólogos na educação de alunos com transtornos de desenvolvimento


O trabalho de psicólogas em escolas é indispensável, mas a necessidade de repensar suas intervenções, sobretudo na educação especial, é emergente. A conclusão é da pesquisadora Valéria Campinas Braunstein, autora do estudo “Escolarização de pessoas com transtornos globais do desenvolvimento: possibilidades de atuação no campo da psicologia”.

A ideia do estudo partiu da experiência profissional e acadêmica da autora, que envolve a criação de uma escola que, a partir de 1997, passou a receber alunos com necessidades especiais na educação. A decisão, recorda, resultou em questionamentos e pressões tanto por parte de profissionais quanto de pais de alunos. “Alguns, indignados, transferiram seus filhos, afirmando ser irresponsabilidade de nossa parte permitir tal convivência”, descreve a pesquisadora.

Apesar de a decisão causar a perda de cerca de metade dos alunos, a autora ressalta que os pais de alunos com necessidades especiais de educação insistiram para que o trabalho continuasse, em função dos ganhos observados no bem-estar e desenvolvimento de seus filhos.

Essa experiência também é descrita na dissertação de mestrado, que foi defendida na Faculdade de Educação da USP. O trabalho descreve ainda os parâmetros que norteiam práticas em psicologia escolar frente às demandas relacionadas ao aluno com transtornos globais do desenvolvimento. “Nossa proposta desde o início foi de refletir sobre os impasses da concretização de uma prática crítica em que os psicólogos possam buscar respostas às suas indagações sobre o trabalho com crianças que têm transtornos globais de desenvolvimento no âmbito escolar”.

A pesquisadora ressalta, ainda que esse exercício deve começar no momento de formação do profissional. “É fundamentalmente importante que alunos e profissionais que pretendam trabalhar com a diversidade possam conhecer a realidade escolar por meio de estágios articulados com discussões com profissionais da área escolar”.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog www.meunomenai.com

Para conhecer o estudo completo, acesse o link: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48134/tde-10122012-145930/pt-br.php

Psicólogos atuando em segurança pública: pesquisadores defendem adoção de conceitos centrais

A reedição de propostas que visam ao combate da criminalidade abre um novo campo de atuação para psicólogos: a segurança pública.

Os pesquisadores Pedro Paulo Gastalho de Bicalho, Virginia Kastrup e Jefferson Cruz Reishoffer abordam o tema no estudo “Psicologia e segurança pública: invenção de outras máquinas de guerra”. “Como psicólogos, quais seriam nossas contribuições para o contexto atual de segurança pública que buscamos delinear em algumas linhas através de alguns analisadores?”, perguntam os autores. Para responder a esta e outras questões, a pesquisa examina as principais definições de controle social, procurando relacionar a questão da escalada da insegurança com o advento da nova ordem social proposta pelo modelo neoliberal.

A atuação do psicólogo, segundo os pesquisadores, poderia ganhar outra potência com a utilização de dois conceitos centrais da Análise Institucional Francesa: a autoanálise e a autogestão. “Será a partir destes processos que as comunidades poderão produzir saberes acerca de seus próprios problemas, de suas reais necessidades, de suas limitações e das causas que determinam tais necessidades e tais limitações”, explicam.

O estudo reúne, ainda, três analisadores: o ‘caveirão”, os mandados de busca coletivos e os autos de resistências, que condensam uma correlação de forças que fortalece a criminalização da pobreza e a adoção do extermínio como políticas de segurança pública.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog http://www.meunomenai.com

Para conhecer o estudo completo, acesse o link: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-71822012000100007&script=sci_arttext

Obesidade infantil adianta conflitos entre pais e filhos

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Qual o papel das mães e avós no aumento da obesidade infantil no Brasil? Falta de coesão em torno das normas alimentares da casa e de limites à criança, conflitos conjugais e familiares, além da dificuldade de adequar o ambiente às recomendações solicitadas por profissionais como médicos e nutricionistas são fatores que podem contribuir para o avanço da obesidade infantil no Brasil.

Os fatores são apontados pelas pesquisadoras Priscilla Machado Moraes e Cristina

Maria de Souza Brito Dias, autoras do estudo “Nem Só de Pão se Vive: a voz das mães na obesidade Infantil”, que analisou crianças entre oito e dez anos atendidas em ambulatório de referência para obesidade infantil. O objetivo da pesquisa era compreender os elementos presentes na história familiar de crianças com obesidade.

De acordo com as pesquisadoras, crianças obesas começam a pensar que são diferentes de tanto serem tratadas assim. “É como se elas não pertencessem a lugar nenhum, exceto quando encontram outra criança na mesma condição que a sua”, destacam. “Começam a se sentir incapazes para fazer qualquer coisa, ficam desmotivadas e acham que não adianta tentar, afinal, elas não conseguirão mesmo”.

Quando a autoestima está muito baixa, ressaltam as autoras, crianças obesas começam a se achar insignificantes e, por vezes, acabam encontrando uma forma de se relacionar com os colegas, sendo as boazinhas do grupo e fazendo o que outros não fazem na esperança de agradar.

As autoras destacam ainda que o Brasil é considerado um país em transição nutricional, pela substituição da desnutrição – decorrente da escassez de alimentos – pela obesidade, devido ao excesso e à inadequação do consumo alimenta, e que a obesidade infantil vem causando a precocidade de conflitos entre pais e filhos. “A prevalência da obesidade reflete as profundas modificações que a sociedade vem passando ao longo dos anos: saída da mulher para o mercado de trabalho, proliferação das redes de fast-food e mudanças das brincadeiras infantis que faziam despender energia para o uso de games em computadores”.

Fonte: http://www.scielo.br/pdf/pcp/v33n1/v33n1a05.pdf

Interesse de alunos do Ensino Fundamental por matemática aumenta após oficinas

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Alunos do Ensino Fundamental que participaram de oficinas dos jogos Kenken e Feche a Caixa mostraram-se mais interessados nas aulas de matemática e afirmaram que passaram a gostar mais da disciplina. Esse resultado foi observado pela psicóloga Talita Lima Queiroga, e descrito em seu trabalho “Jogos de raciocínio lógico-matemático em alunos da Escola Fundamental II”. A pesquisa foi realizada durante pós-graduação no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

Com o objetivo de estudar o raciocínio lógico-matemático em alunos de ensino fundamental, a psicóloga analisou os aspectos lógico-matemáticos dos jogos e observou como esse tipo de raciocínio se manifestava nos alunos, enquanto resolviam os desafios propostos. Além de verificar o desempenho dos alunos, a psicóloga analisou com os alunos lidam com os erros e acertos e argumentam suas respostas.

Criado em 2004 no Japão, o jogo Kenken é similar ao Sudoku: deve ser completado com números sem que eles se repitam em uma linha ou coluna. O tracejado mais escuro forma um bloco, onde a primeira casa contém um número e um sinal, representando, respectivamente, o resultado que deve ser obtido e a operação matemática que deve ser utilizada para chegar a tal resultado.

O Feche a Caixa, além de incluir raciocínio lógico e operações aritméticas, envolve também a sorte, pois as jogadas dependem de resultados de dados. O jogo tradicional é composto por nove caixas (ou casas) com números visíveis. O jogador lança dois dados e os resultados obtidos devem ser somados. Em seguida, abaixa-se a caixa, ou as caixas, correspondentes ao valor da soma dos dados. As caixas abaixadas permanecem assim até o fim da partida. Quando o total de pontos não permitir fechar mais nenhuma casa, o jogador somará os valores que continuam expostos e, quem atingir primeiro os 45 pontos, perde.

No Kenken, os alunos erraram pouco: em apenas 11,6% dos jogos entregues à pesquisadora apresentavam algum tipo de erro. O mesmo resultado foi observado quando os jogos foram passados como tarefa de casa. Entretanto, apenas 15,5% das jogadas foram resolvidas sem a necessidade de jogadas excedentes.

A porcentagem de erro no Feche a Caixa foi maior: 22%. “É interessante observar que, embora o Feche a Caixa exigisse operações matemáticas consideradas pelos alunos como mais simples, os erros de cálculo foram mais frequentes nesse jogo do que no Kenken”, destaca a psicóloga.

A pesquisadora realizou ainda torneios, e apesar de observar que a competição aumentou a motivação, concluiu que a ansiedade também foi maior, tornando os alunos mais suscetíveis a erros. “O errar faz parte da vida e, muitas vezes, pode resultar em uma aprendizagem”, afirma.

Talita Lima Queiroga destaca ainda que durante as oficinas ocorreu o chamado Ciclo Virtuoso, que segundo o professor da USP Lino de Macedo, orientador da pesquisa, consiste em jogar para aprender matemática. “Jogar para aprender matemática, aprender matemática para jogar melhor, jogar melhor para competir, competir para se aperfeiçoar, aperfeiçoar-se para tornar-se mais desenvolvido no jogo do conhecimento, no jogo da escola”, conclui a psicóloga.

Fonte: Universidade de São Paulo