Timidez e dependência do olhar

O olhar do outro sobre uma pessoa tímida pode produzir sofrimento, tais como embaraço e humilhação. O pesquisador Julio Verztman, autor do estudo “Embaraço, humilhação e transparência psíquica: o tímido e sua dependência do olhar”, discute em seu artigo os impasses experimentados pelo sujeito caracterizado como tímido na sua relação com o olhar.

O autor destaca que no projeto-piloto da pesquisa, que envolveu o atendimento a dois pacientes com o diagnóstico de fobia social, duas possibilidades de experiência da vergonha chamaram a atenção: a vergonha vivida como embaraço e a vergonha vivida como humilhação.

O paciente um, que sentia vergonha como embaraço, conseguia nomear alguns de seus medos diante da exposição ao olhar do outro, e também era capaz de evitar situações nas quais poderia sentir vergonha. “O motivo de sua vergonha lhe escapava inteiramente, e não percebia qualquer animosidade intencional no outro, mesmo que isto fosse constantemente temido”, ressalta o pesquisador. O paciente dois, que sentia vergonha como humilhação, ao contrário, era muito mais retraído e desconfiado. “Ele não conseguia sequer definir o que sentia e se precavia permanentemente da possibilidade palpável de sofrer humilhação intencional por parte do outro”, descreve Julio Verztman.

O autor aponta ainda que o tímido sente-se constantemente como um réu durante um julgamento, o julgamento do olhar do outro. Neste julgamento, qualquer gesto ou texto do tímido o coloca mais ainda em evidência. Citando outro pesquisador, J. F. Costa, autor do estudo “Os sobrenomes da vergonha: depressão e narcisismo”, Julio Verztman ressalta que as pessoas envergonhadas enfrentam um paradoxo: ao mesmo tempo em que querem ser reconhecidos como objeto de investimento de outra pessoa, temem não corresponder às expectativas que acreditam que essa outra pessoa tem sobre eles. Em síntese, o tímido nem quer ser visto nem quer deixar de ser visto.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog www.meunomenai.com

Para conhecer o estudo completo, acesse o link: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-14982014000300011&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Caixa lúdica para tratamento terapêutico de Síndrome de Asperger


A utilização de uma caixa lúdica em processo terapêutico de crianças com Síndrome de Asperger pode ajudar na construção de vínculos e suprir carências de processo multiprofissional a longo prazo, sobretudo na rede pública. “Percebeu-se que o atendimento, adaptado às condições do ambulatório público, contribuiu para a capacidade de comunicação e de interação da criança, fato que aponta para a importância do debate sobre a psicoterapia psicodinâmica com esta população e formas de realizá-la”, destaca o estudo “Ludoterapia de criança com Síndrome de Asperger: estudo de caso”.

Os autores, Fernanda Pereira Horta Rodrigues, Maíra Bonafé Sei e Sérgio Luiz Saboya Arruda acompanharam o atendimento a um menino de 12 anos diagnosticado com Síndrome de Asperger e atendido no ambulatório de psicoterapia de crianças de um hospital público. Segundo os autores, faltam na literatura científica descrições e discussões acerca da psicoterapia psicodinâmica em crianças com diagnóstico específico de Síndrome de Asperger, embora possam ser citadas algumas referências sobre intervenções com indivíduos com autismo e transtornos globais do desenvolvimento em geral.

Para a pesquisa, foi usada a psicoterapia lúdica de orientação psicodinâmica. Os atendimentos psicoterapêuticos foram realizados por uma terapeuta participante de um curso de especialização em psicoterapias da criança, cujas atividades se estenderam por dois anos. As sessões eram semanais e duravam em torno de 45 minutos. “Neste ambulatório há situações em que é propiciado um espaço de acolhimento para os pais”, descreve o estudo.

O menino participante da pesquisa foi o terceiro e último filho do casal, e suas duas irmãs mais velhas já são casadas há algum tempo, com famílias próprias. Para poder seguir o tratamento psiquiátrico do filho, a mãe largou o emprego e mudou-se de cidade, residindo com o marido e o filho em bairro próximo do hospital, para o qual somente é necessário pegar uma condução. Atualmente o pai é funcionário público municipal e a mãe cuida da casa.

Não falou até os três anos de idade, apenas emitia alguns sons que só eram compreendidos pela mãe, que atendia seus pedidos. Com quatro anos, falava poucas palavras e ingressou na escola, sem se socializar com as outras crianças. Era agitado e desatento, mas mostrava bom desenvolvimento intelectual, e fez acompanhamento fonoaudiológico dos três aos nove anos.

Ao chegar para o atendimento psicológico, cursava a sexta série do ensino fundamental, e era chamado pelas outras crianças da escola de “louco”. Segundo sua mãe, escolhia crianças de idade inferior à sua para se relacionar, o que para ela não trazia vantagens. Mantinha um vínculo de amizade com apenas uma criança, que o acompanhava em todas as atividades, e tinha um relacionamento próximo com apenas uma professora, que havia lhe dado aula por vários anos e, todos os dias, ao encontrá-la, cumprimentava-a com um beijo. A mãe estranhava essa aproximação da parte dele e sempre chamava sua atenção. Com exceção desse colega e dessa professora, o menino não conseguia estabelecer relações sociais fora do núcleo familiar.

Em casa, tinha o hábito de criar inventos que eram levados para o hospital e ajudaram o terapeuta no momento do jogo, apesar de recusar-se a brincar com os brinquedos da caixa lúdica, dizendo que só mexia com os seus inventos. A partir daí, sua caixa lúdica foi reformulada, passando a ser chamada de a “caixa de inventos”, os resultados positivos começaram a aparecer.

A técnica da caixa lúdica, segundo o estudo, representa e simboliza o mundo interno do paciente, permitindo que a criança expresse suas fantasias, angústias, defesas psíquicas e sentimentos em geral por meio dos objetos presentes na caixa, de desenhos e brincadeiras.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog www.meunomenai.com

Para conhecer o estudo completo, acesse o link: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-863X2013000100121&lng=pt&nrm=iso

Tratamento do autismo: escolha entre psicanálise e análise do comportamento aplicada

Psicanálise e Análise do Comportamento Aplicada (ABA) são duas formas de tratamento para autismo dentro da área de psicologia. “Quem pode melhor atender uma criança com autismo?”, pergunta a pesquisadora Luisa Guirado Caramicoli, autora do estudo “Autismo: uma análise institucional do discurso dos tratamentos”. Interessada em descobrir como ocorrem esses tratamentos, a pesquisadora entrevistou profissionais que atuam nestas duas frentes.

A pesquisa contou com questionários que permitiam aos profissionais descreverem suas experiências, sucessos e frustrações, dificuldades e facilidades, para investigar o efeito do discurso desses profissionais sobre o próprio autismo. Os resultados surpreenderam a autora. “Não se observaram apenas diferenças no modo como psicanalistas e analistas do comportamento veem a criança com autismo, a família, seu próprio trabalho e o alcance do método de tratamento”.

Diante da proximidade dos discursos, a pesquisadora optou por identificar os pontos em comum e as divergências. Tanto analistas do comportamento quanto psicanalistas se relacionaram com a criança e com o autismo com base em teorias e em metodologia que sustenta suas ações. Por outro lado, a confiança mostrada sobre o alcance de mudanças, a objetividade na definição de pontos de partida e de chegada nos trabalhos clínicos, as certezas quanto aos resultados e à eficácia dos procedimentos terapêuticos e a inserção programada dos pais no tratamento foram diferentes para os dois grupos de analistas e psicanalistas entrevistados.

A pesquisadora observa que o público – pais, familiares e até a mídia – têm um papel inusitado no confronto entre os dois tipos de tratamento: a escolha acaba sendo não pelo melhor, mas pelo que mais se aproxima de atender à demanda desse público. “O autismo se torna, assim, uma coisa pública”, defende.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog www.meunomenai.com

Para conhecer o estudo completo, acesse o link: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-30072013-093834/pt-br.php

Mal-estar na civilização: pesquisador propõe reflexão sobre desmembramento da personalidade psíquica

A indestrutibilidade do psíquico é superestimada? Essa é pergunta do pesquisador François Villa, psicanalista, professor na Universidade de Paris Diderot e autor do estudo “Mal-estar na civilização e desastre totalirário”. Segundo o autor, os traços mnésicos são indestrutíveis, enquanto os processos e os destinos de seus produtos são destrutíveis. “O psíquico pode ser atingido pela destrutividade, pela do mundo e por aquela de que é portador”, ressalta.

O estudo destaca ainda que as condições de possibilidade do psíquico, das quais a cultura faz parte, podem ser destruídas ou alteradas, e questiona: “Não é incrível que demos seguimento à tarefa psicanalítica como se a onda da irrupção do terror e da barbárie na cultura não tivesse abalado as quatro paredes de nossos consultórios?”.

Segundo o autor, não apenas não chegamos a saber qual a extensão da transformação dos espíritos e das mentalidades sob os regimes totalitários, como também não sabemos até que ponto nosso espírito e nossa mentalidade são a descendência direta de tal transformação. “Essa transformação teria sido apenas transitória, efêmera?”, pergunta. “Será que vamos rejeitar sem hesitação a ideia de uma transformação irreversível e a hipótese de que a regressão que favoreceu a instauração do regime nazista tanto quanto a tornou possível, atingiu um ponto que favorece o retorno de alguma coisa que nunca tinha existido?”.

Atentando para a possibilidade de exagero desse questionamento, o autor sugere a reflexão acerca dos ideais culturais após o cataclismo que teve como consequência a decomposição e o desmembramento tanto do projeto civilizador quanto da personalidade psíquica.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog www.meunomenai.com

Diagnóstico do autismo em bebês: riscos do atraso e a opção da psicanálise

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Atrasos no diagnóstico do autismo fazem com que o tratamento seja tardio, correndo o risco de ser mais complexo ou menos eficiente em função da cristalização dos sintomas da síndrome. Para evitar que isso ocorra, as psicólogas Mariana Rodrigues Flores e Luciane Najar Smeha propõem a intervenção precoce, a partir do momento da detecção de risco de autismo. “Em sua maioria, há grande desconhecimento dos médicos em relação à percepção dos sinais indicativos de risco para o autismo (distonias musculares, recusa do olhar, perturbações no sono, intolerâncias alimentares, entre outros), já que se detêm apenas nos menos sutis que aparecem mais tarde no desenvolvimento, como a ausência de linguagem”, afirmam.

Autoras do estudo “Bebês com risco de autismo: o não-olhar do médico”, as pesquisadoras entrevistaram neuropediatras e pediatras e observaram que a detecção precoce não faz parte de suas realidades. Por outro lado, ficou evidente que a maioria dos participantes sente necessidade de formação adequada dedicada à percepção mais precoce do risco de autismo. “Isto é bastante animador, porque abre as portas para que a Psicanálise adentre os consultórios e trabalhe em conjunto com os médicos da primeira infância em prol dos bebês, especialmente na promoção da saúde mental”.

O estudo aponta como sintomas físicos do autismo dificuldades na alimentação, irritabilidade, atrasos no engatinhar, no andar e no sentar, entre outros. A relação entre a mãe e o bebê também deve ser observada, em especial a troca de olhares: se ele busca ativamente o olhar da mãe, e se responde à sua fala.

De acordo com as autoras, muitos psicanalistas vêm trabalhando com clínica de bebês e percebem resultados favoráveis porque os tratam tendo em mente a suposição de um sujeito ainda em vias de constituição, no qual há possibilidade de (re)estruturar o circuito pulsional que, no caso do autismo, não foi completado. “Há intervenção na relação do bebê com as figuras parentais, sobretudo com o Outro primordial, para operar justamente na fratura dessa relação, ou seja, recolocar o laço funcional com o Outro”, explicam.

Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-14982013000300010&lng=pt&nrm=iso