Diretores de escolas estaduais e educadores: tensões e incoerências de discursos

Qual a função de um diretor de escola pública estadual? Refletindo sobre essa questão, as pesquisadoras Graziela Zambão Abdian; Maria Eliza Nogueira Oliveira e Graziela de Jesus, da UNESP de Marília (SP), fizeram revisão de literatura e entrevistas com gestores e equipes de docentes. “Os resultados da análise indicam contradições na percepção da Administração Escolar, tal como difusa nos diferentes âmbitos que, de certa forma, refletem-se nas concepções dos entrevistados”, destacam.

O estudo “Função do diretor na escola pública paulista: mudanças e permanências” foi baseado na hipótese, levantada pelas autoras, de que os profissionais da educação percebem a função do diretor e a vivenciam por meio das tensões estabelecidas entre a realidade da escola pública, a produção do conhecimento e as diretrizes da política educacional.

A literatura levantada aponta que, entre os anos 1960 e 1970, houve a predominância da Administração de Empresas como subsídio teórico da Administração Escolar; sendo o diretor o executivo na unidade escolar, líder no sentido de motivar o alcance de objetivos postos fora e acima de sua escola, e autoridade hierarquicamente constituída e responsável pelo progresso da empresa escolar. “Nos anos 1980, houve preocupação de descentrar o diretor no exercício de sua função, experimentando novos subsídios teóricos para a Administração Escolar que permitissem pensar sua própria natureza”, ressalta o estudo.

Já nos anos 1990, identifica-se a convivência de diferentes perspectivas teóricas e metodológicas, a predominância de coletâneas, abordagens que se aproximam da gestão empresarial e perspectivas afinadas com as ideias dos anos 1980. Nessa época, segundo as autoras, percebe-se inclusive em uma mesma abordagem aspectos que, evidentemente, parecem inconciliáveis. “É o caso da expressão liderança para uma gestão democrática”.

O estatuto aponta ainda que a partir dos anos 1990, principalmente nos anos 2000, quando os documentos legais deixaram de funcionar como Estatutos ou Normas, para se transformar em Decretos e Resoluções, a função do diretor como executivo da escola, responsável por seus resultados ficou evidente. “Neste momento, a definição da função é revestida de termos comumente utilizados na literatura sobre Administração empresarial e que atualmente se apresenta com certa frequência no campo da gestão educacional”.

Segundo o estudo, os profissionais da educação entrevistados deixam transparecer esta tensão, mesmo que não o façam de forma consciente. “Considera-se tensão, porque, de um lado, há conquistas teóricas e legais que indicam possibilidades de vivências democráticas; de outro, porque a Administração/gestão escolar não conseguiu teoricamente contrapor-se aos ditames empresariais”.

A publicação de documentos legais que definem pormenorizadamente as competências, habilidades e atribuições do diretor de escola também cobram-lhe o compromisso de concretizá-las, em busca de resultados fixos externamente às escolas, alerta o estudo. “No registro e documentação das diferentes execuções discursivas dos entrevistados, pôde-se observar que transitam por termos que, tal como por eles articulados, beiram à incoerência, à incompatibilidade. Trata-se de um ir e vir de ideias de o diretor poder, mas não poder ao mesmo tempo; de existir, de fato, participação, mas tomada na noção de poder falar e ser ouvido, e não no sentido de participar efetivamente da tomada de decisão”, aponta o estudo.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog www.meunomenai.com

Para conhecer o estudo completo, acesse o link:

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2175-62362013000300015&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

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Negação da autoridade do professor: pesquisa aponta como os docentes de ensino básico sentem-se com a unificação dos currículos escolares

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A política educacional de unificação dos currículos escolares implantada pelo governo estadual paulista em 2008 foi analisada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP pelo geógrafo, pedagogo e coordenador pedagógico Edjailson Bezerra da Silva. A principal conclusão da dissertação de mestrado foi que a medida deixou o papel do professor em segundo plano. “A proposta curricular desconsidera as especificidades de cada escola e aluno, estabelece um ensino baseado nas avaliações realizadas pelo próprio Estado e forma um aluno sem iniciativa para questionar e criticar sua condição e realidade, uma vez que o material que lhe serve como base do processo de aprendizagem é a única ‘verdade’ que lhe é oferecida”, destaca.

O pesquisador aplicou questionários a professores de dez escolas públicas estaduais da Diretoria de Ensino Sul 3, da capital paulista. Esta Diretoria de Ensino foi escolhida por ser a que abrange um maior número de escolas no estado de São Paulo. “As respostas de 202 professores forneceram um diagnóstico de como os docentes de ensino básico se enxergavam após a implementação do que viria a ser o Currículo oficial”, explica o autor.

Depois de todas as etapas de análise da pesquisa, Silva concluiu que a instauração de um currículo único na rede estadual de ensino foi feita para desenvolver uma cultura de aprendizagem comum a todos os estudante. “A homogeneização em nome da igualdade de oportunidades promove um maior controle do Estado sobre o trabalho do professor”, aponta o estudo. Partindo do princípio de que o ensino é uma ação intelectual, o pesquisador alerta que o professor precisa não apenas ter domínio, mas também ser capaz de criar e recriar formas de viabilizar o processo de ensino e aprendizagem.

De acordo com o autor, o novo sistema negligencia as diferentes formações culturais e de condição de aprendizagem dos alunos, impondo a restrita aplicação de sequências teórica/exercícios de uma apostila pronta para todos, que fixa o ritmo que a aula deve seguir e determina o tempo que o aluno deve levar para aprender. “Aquele que não acompanha é excluído do sistema de ensino”.

Conheça o estudo completo no site: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8136/tde-14092012-101036/pt-br.php

Qualidade de vida de professores: o caso dos docentes de ciências no Rio Grande do Sul

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As características demográficas, econômicas, ocupacionais, atividades domésticas, esforços físicos, saúde física, saúde mental e os diagnósticos médicos mais referidos pelos professores da área de ciências de uma escola pública do Rio Grande do Sul foram objeto de estudo sobre qualidade de vida de professores. “Encontraram-se diversas queixas em relação à saúde e à qualidade de vida dos professores estudados, como nervosismo, rouquidão, dor nas costas, braços e pernas, além de formigamento e inchaço nas pernas”, afirmam os pesquisadores Liliani Mathias Brum, Cati Reckelberg Azambuja, João Felipe Peres Rezer, Daiana Sonego Temp, Cristiane Köhler Carpilovsky, Luis Felipe Lopes e Maria Rosa Chitolina Schetinger.

Autores do estudo “Qualidade de vida dos professores da área de ciências em escola pública no Rio Grande do Sul”, os pesquisadores destacam que o conhecimento dessas evidências pode contribuir para a construção de medidas para a reorganização da sistemática de trabalho e influenciar diretamente na qualidade de vida dos professores, gerando melhor desempenho na atividade de educar. “A investigação da qualidade de vida dos professores de ciências e a busca por melhorias que promovam um melhor desempenho desses profissionais no cotidiano das escolas podem ser uma forma de reduzir as desigualdades na educação no Brasil e favorecer o crescimento dos professores em nível educacional e social”, ressaltam.

O trabalho aponta estudos com dados alarmantes: o declínio no número de professores/educadores no Brasil, podendo ocasionar um déficit de profissionais capacitados que garantam a universalização da educação básica de qualidade, e a estimativa de que até o ano 2015 o Brasil precisará contratar 396 mil novos professores para garantir uma educação para todos. “Os problemas de saúde já afastaram até trinta vezes 25% dos professores, e o mesmo percentual já sofreu dois acidentes durante a jornada docente”, observam os pesquisadores.

Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-77462012000100008&lng=pt&nrm=iso

Fragilidades da seleção de professores por universidades federais

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Os processos de seleção de professores em universidades federais são pautados pela observação fragmentada do candidato, com ênfase para elementos que pretendem avaliar o conhecimento do candidato e sua capacidade de ensinar. Além disso, tais processos apresentam fragilidades que podem comprometer seus resultados. Essas são as conclusões da pesquisa documental “Seleção de Docentes em Universidades Federais: uma análise dos regulamentos”, realizada por Elisabete Stradiotto Siqueira, Erlaine Binotto, Fabiula Meneguete Vidas da Silva e Débora Nayar Hoff.

O estudo foi realizado com o objetivo de analisar se a estrutura do concurso público avalia o candidato naquilo que lhe é demandado no contexto do trabalho docente. “A estabilidade presente na esfera pública dá ao candidato secionado a oportunidade de permanecer nela pelo menos 30 anos, considerando a nova lei de aposentadoria para homens e mulheres (idade, tempo no cargo e contribuição)”, ressaltam as pesquisadoras.

De acordo com elas, os processos que acarretam a demissão de docentes em universidades federais não se mostram tão comuns, o que faz com que equívocos cometidos durante a seleção encontrem pouca possibilidade de correção ao longo do tempo. “Quando encontram esta possibilidade, provocam desgastes para a instituição”.

O estudo sugere práticas que podem aperfeiçoar o processo seletivo: acesso ao currículo dos avaliadores antes do processo, evitar avaliações fragmentadas do candidato com etapas eliminatórias, que não permitem análise mais ampla de suas competências, divulgação dos componentes da banca aos candidatos com antecedência e inclusão de entrevista, entre outras.

As pesquisadoras ressaltam a pouca clareza dos regulamentos analisados, o que pode levar a uma abordagem mais funcionalista que estratégica. “Na abordagem estratégica seria considerada a construção e gerenciamento do capital intelectual, alinhada à estratégia da instituição que se refere ao desenvolvimento do ensino, pesquisa e extensão”, destacam. “De uma forma geral os regulamentos não orientam os candidatos a consultarem documentos institucionais que revelem sua dimensão estratégica, levando a crer que essa questão não é avaliada”.

Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-40362012000400006&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Estrutura escolar afeta saúde de professores, conclui estudo

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O cotidiano escolar no Brasil pode ser insuportável para a maioria dos profissionais da educação. A conclusão é do historiador Danilo Alexandre Ferreira de Camargo, autor da dissertação de mestrado “O abolicionismo escolar: reflexões a partir do adoecimento e da deserção dos professores”, defendida na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

Durante quatro anos, Danilo Alexandre Ferreira de Camargo analisou mais de 60 trabalhos acadêmicos a respeito do adoecimento de professores, e concluiu que não existem diferenças significativas entre os conceitos apresentadas nas pesquisas sobre o tema.

O pesquisador ressalva que sua intenção não é questionar os trabalhos desenvolvidos, e sim a escola como instituição. Aplicando o conceito de governamentalidade desenvolvido pelo filósofo francês Michel Foucault, Danilo Alexandre Ferreira de Camargo defende que o adoecimento dos professores e sua posterior deserção profissional são resultados das condutas internas da instituição escolar.

Essa realidade, acredita o historiador, torna natural o processo de burocratização da infância, que por sua vez resulta em cidadãos facilmente comandados politicamente. Assim, conclui Danilo Alexandre Ferreira de Camargo, os problemas da realidade escolar devem ser encarados como uma questão política, e não apenas como desvios morais de alunos e professores.

A questão central da dissertação, segundo o autor, não é propor uma nova plataforma educacional, e sim provocar reflexões sobre a incapacidade da sociedade contemporânea de imaginar um modelo educacional substituto. “Nossa sociedade percebe o ensino escolarizado como algo absolutamente natural e indispensável, apesar do mesmo existir da forma que conhecemos hoje somente a partir do século XIX”, destaca.

Fonte: Universidade de São Paulo