Filhos-prodígio obrigam os pais a redesenhar a vida


Ter um filho extremamente talentoso, ou superdotado, exige que os pais busquem novas comunidades: de pessoas com experiências semelhantes e de especialistas, que ensinam a esses pais estratégias para lidar com a excepcionalidade do filho. Os pais assumem, assim, não só seu repertório de conhecimento menor do que o do filho, mas também seu próprio desconhecimento em desempenhar as funções materna e paterna naquela condição atípica.

Andrew Solomon, autor do livro “Longe da árvore”, afirma que, assim como a deficiência, a prodigiosidade obriga os pais a redesenhar a vida em torno das necessidades especiais do filho. “Ser muito dotado e ser deficiente são surpreendentemente parecidos: isolamento, incompreensão, espanto”.

Durante uma década, o autor realizou entrevistas com pais de crianças, jovens e adultos que ele definiu como fora dos padrões biológicos e sociais. “É possível prejudicar os prodígios alimentando-lhes o talento à custa do crescimento pessoal ou cultivando seu desenvolvimento geral em detrimento da aptidão especial que podia lhes dar a mais profunda satisfação”, ressalta o autor. “Se as expectativas da sociedade pela maioria das crianças com diferenças profundas são demasiado baixas, as expectativas depositadas nos prodígios tendem a ser perigosamente altas”, alerta.

O autor explica ainda que a palavra prodígio costuma refletir a precocidade em determinado domínio, enquanto a genialidade refletiria a capacidade de acrescentar algo de valor à consciência humana. Assim, é possível ser dotado de genialidade sem ser precoce, e vice-versa. As pessoas entrevistadas para o livro, entretanto, muitas vezes apresentavam uma sobreposição de precocidade e genialidade, e estão concentradas na área musical, que foi o foco do autor para este capítulo.

Entre diversas histórias de prodígios em música, destaca-se a do pianista russo conhecido como Zhenya, que contou: “De menino, quando eu tocava, era apenas por gostar da música e eu tocava do modo como a sentia”. Conforme crescia, entretanto, suas idéias tornaram-se mais claras ao mesmo tempo em que ficavam mais complexas, ou que aumentava a dificuldade em executá-las. “É por isso que agora fico mais nervoso antes dos meus concertos”, afirma o pianista. Segundo Andrew Solomon, essa é a descrição mais acertada a respeito de como cresce um prodígio.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog www.meunomenai.com

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Da Holanda a Beirute: a experiência de criar um filho autista


O que a Holanda, na Europa, e Beirute, no Líbano, têm a ver com o autismo? A relação está no livro “Longe da Árvore”, do jornalista Andrew Solomon: enquanto uma mãe de uma criança deficiente definiu sua experiência como se tivesse descoberto que estava na Holanda em vez da Itália, como planejara, uma mãe de autista descreveu a sua própria experiência de criar o filho especial como se tivesse sido bruscamente jogada numa zona de guerra.

“Welcome to Holland” (“Bem vindo à Holanda”) é um texto de autoria de Emily Kingsley, que descreve a deficiência como um lugar bonito, cheio de serenas alegrias, mas diferente da maternidade que ela planejara: a Itália de seus sonhos.

Em contrapartida, a mãe da criança autista tem dificuldade para encontrar alegrias serenas em meio aos sintomas extremos de seu filho: capacidade de passar muitos dias sem dormir, aliada à incapacidade de se conectar ou falar com outro ser humano – inclusive a própria mãe. Some-se a isso os atos de violência aleatória que seu filho costuma cometer a sua hiperatividade, e não será difícil entender por que essa mãe comparou sua experiência com a maternidade a  uma guerra.

O autismo é acompanhado por uma série de frustrações, e talvez a maior delas seja o fato de que não é possível prever o que torna um tratamento eficaz em um autista e totalmente ineficaz em outro. Infelizmente, a única maneira de descobrir a eficácia de um tratamento é experimentá-lo, geralmente por muito tempo.

O jornalista descreve o caso de uma menina diagnosticada com autismo que, após inúmeras intervenções, como fonoaudioterapia, terapia ocupacional, fisioterapia e musicoterapia, continuava sem dormir, causando feridas em si mesma e sem conectar-se com outras pessoas. Um neurologista falou aos pais, sem rodeios, que se ela havia reagido a toda aquela intervenção precoce e de qualidade, nunca iria falar.

Não foi, no entanto o que aconteceu nos anos seguintes: em ocasiões diferentes a menina falou frases inteiras e com sentido, identificando corretamente cores de objetos e manifestando vontades. Infelizmente, os pais não conseguiram identificar o que fizera com que ela falasse naquelas situações. Essa mãe acredita que o ato de falar, para sua filha, é como um congestionamento de trânsito: em determinados momentos, as ruas e avenidas ficam totalmente desimpedidas, e as palavras conseguem então chegar à boca.

Essa mesma mãe encontrou, no decorrer dos anos, suas próprias alegrias serenas na experiência da maternidade: um dia, ao se despedir da filha, a menina esfregou o próprio rosto no seu. Uma profissional que acompanhava a menina vibrou com a reação da menina, e a mãe soube que ela jamais fizera isso com nenhuma outra pessoa. Era o primeiro beijo que recebia de sua filha autista.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog www.meunomenai.com

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