O ato de conversar para pessoas com déficit cognitivo

nullO ato de conversar é uma das bases dos relacionamentos, e muita gente acha que é um processo tão fácil e natural quanto respirar, algo que fazemos automaticamente quase sempre sem perceber. Conversar, entretanto, é algo bastante complexo, pois exige o exercício simultâneo de uma série de habilidades. Essas habilidades podem ser comparadas aos músicos de uma orquestra – quando todos estão entrosados, o resultado é algo compreensível e agradável para quem está acompanhando. Quando a orquestra não está afinada, por outro lado, o público fica sem entender nada: não sabe qual músico acompanhar, e nem quais sons são intencionais e quais são “desafinadas”.
Músicos levam anos aprendendo a tocar um instrumento e muitas horas ensaiando para tocar em grupo, e isso é facilmente compreendido e aceito pelas pessoas, até mesmo pelas que nunca tentaram tocar um instrumento. Por outro lado, espera-se que o processo de conversação seja facilmente adquirido, ainda nos primeiros anos de vida. As pessoas com déficits cognitivos sociais chamam a atenção para o fato de que esse processo não é simples e pode não ser tão rápido.
Entre as habilidades exigidas numa conversação, estão as de estabelecer contato visual, conhecer as palavras e compreender o propósito de usar determinadas perguntas em momentos adequados. Identificar quais são as habilidades que a pessoa com déficit cognitivo consegue desempenhar permite ajudá-la a coordenar com outras habilidades com as quais ela não está tão familiarizada. Assim, se ela conhece quais são as perguntas básicas – como, onde, por quê, quem e quando – mas não consegue identificar o momento de usá-las, é possível escrever essas perguntas em cartões para fazer exercícios, nos quais o interlocutor vai mostrando os cartões indicados conforme a conversa-treino se desenvolve.
O mesmo pode ser feito com alguns comentários convencionais, que servem para demonstrar o interesse de uma pessoa no que a outra está falando, estimulando-a a continuar falando e assim manter a conversa fluida.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog http://www.meunomenai.com
Fonte: “O que é uma conversação? – Algumas ideias para ensinar a conversar” (tradução livre do original).
Para ler o texto original na íntegra (em espanhol), acesse o link: http://desafiandoalautismo.org/que-es-una-conversacion-algunas-ideas-para-ensenar-a-conversar/

Gestos e símbolos dão voz a pacientes com Paralisia Cerebral


A clínica fonoaudiológica como um espaço para a escuta do corpo de portadores de paralisia cerebral é a base do estudo “O diagnóstico fonoaudiológico na paralisia cerebral: o sujeito entre a fala e a escuta”, que acompanhou a adolescente Sabrina para estabelecer o diagnóstico diferencial próprio ao campo fonoaudiológico. “A condição básica para a interpretação (do corpo falante) está na dependência do compromisso do fonoaudiólogo com uma escuta balizada por uma teoria psicanalítica e de linguagem que conceba o discurso como perpassado por múltiplos sentidos”, ressalta o trabalho.
As autoras, Giuliana Bonucci Castellano e Regina Maria Ayres de Camargo Freire, explicam que na clínica fonoaudiológica comprometida com a subjetividade e a linguagem de portadores de Paralisia Cerebral, a interação dialógica pode ser atravessada por uma fala ininteligível ou mesmo por sua falta. Elas observaram, durante a análise das transcrições das situações ocorridas na clínica com a adolescente, que a garota e a fonoaudióloga ultrapassam as possíveis referências dos símbolos pictográficos, entrelaçados por traços corporais e sucessões sonoras, ao tomá-los como significantes, passíveis de interpretação.
O estudo conclui que, embora os portadores de Paralisia Cerebral apresentem sintomas graves no corpo e a impossibilidade de fala articulada, não estão fora do campo da fala e da linguagem. São falantes, e seus gestos e símbolos gráficos ganham voz pela escuta e interpretação do Outro na relação dialógica instaurada na cena clínica fonoaudiológica.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog http://www.meunomenai.com

Para conhecer o estudo completo, acesse o link: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-14982014000100008&lng=pt&nrm=iso

Sistema PECS e autismo: comunicação por figuras

O sistema PECS, sigla do inglês Picture Exchange Communication System é frequentemente utilizado em indivíduos com autismo e/ou pouca fala funcional. É um sistema de comunicação por meio de trocas de figuras, e ocorre em seis fases: 1) Fazer pedidos através da troca de figuras pelos itens desejados; 2) Ir até a tábua de comunicação, apanhar uma figura, ir a um adulto e entregá-la em sua mão; 3) Discriminar entre as figuras; 4) Solicitar itens utilizando várias palavras em frases simples, fixadas na tábua de comunicação; 5) Responder à pergunta O que você quer e 6) Emitir comentários espontâneos.

A partir dessa descrição, as pesquisadoras Táhcita Medrado Mizael e Ana Lúcia Rossito Aiello fizeram uma revisão de estudos nacionais e internacionais que apresentavam resultados de intervenções com o PECS como instrumento de ensino de linguagem a indivíduos com autismo e dificuldades de fala. “Os estudos revisados mostraram que, em consonância com a literatura, o PECS parece ser efetivo no ensino da comunicação”, destacam as pesquisadoras.

Esses e outros resultados da revisão foram apresentadas no estudo “Revisão de estudos sobre o Picture Exchange Communication System (PECS) para o ensino de linguagem a indivíduos com autismo e outras dificuldades de fala”, de autoria de ambas.

Os estudos analisados apontam ainda que o uso do sistema PECS foi eficaz no ensino da comunicação funcional pelos participantes tanto com o uso gestual quanto vocal, aumentando o número de trocas de figuras de maneira independente e até diminuindo comportamentos inadequados. As pesquisadoras destacam ainda que o sistema usado nas pesquisas que geraram os estudos brasileiros foi uma adaptação do sistema PECS. “Essa adaptação parece gerar os mesmos resultados positivos que o PECS original, ou seja, ambas as modalidades parecem ser efetivas no ensino de linguagem, e não só para indivíduos com autismo, uma vez que quatro crianças com Paralisia Cerebral, um participante com Síndrome do X-Frágil e um adulto com Síndrome de Down também se beneficiaram do método”, ressaltam as pesquisadoras.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog www.meunomenai.com

Para conhecer o estudo completo, acesse o link: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-65382013000400011&script=sci_arttext&tlng=pt

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LIVOX: aplicativo brasileiro de comunicação alternativa desenvolvido por pai de uma menina com paralisia cerebral pode auxiliar no desenvolvimento da comunicação de autistas

A comunicação alternativa, baseada em figuras, é utilizada por pessoas com doenças e síndromes que afetam o desenvolvimento da fala. Por meio de cartões, pais e cuidadores “conversam” com a pessoa: ao mostrar a imagem de uma criança no chuveiro, por exemplo, a criança sabe que em seguida irá tomar banho.

O método pode ser personalizado, e existem inclusive aplicativos de celular que substituem os cartões. Interessado em utilizar um desses aplicativos para se comunicar com a filha, que em função de sua paralisia cerebral não fala, o analista de sistemas Carlos Pereira entrou em contato com desenvolvedores norte-americanos. Soube, porém, que não havia interesse em entrar no mercado brasileiro. Ou seja, não haveriam versões em português dos aplicativos de comunicação alternativa para celulares.

O analista não desistiu, e utilizou sua formação e experiência profissional para desenvolver o LIVOX, aplicativo totalmente nacional que já é usado no Brasil todo. Criado inicialmente em português, o LIVOX já foi traduzido para mais de 25 idiomas. Em outubro de 2013, Carlos Pereira viaja ao Sri Lanka para concorrer com representantes de 168 países pelo prêmio de melhor aplicativo de inclusão e empoderamento. A competição é apoiada pela ONU e LIVOX foi o vencedor da etapa brasileira.

Carlos Pereira conta que a utilização do LIVOX por sua filha rende momentos inesquecíveis. Além de descobrir o quanto a filha tem noção do que acontece à sua volta, o LIVOX abriu a possibilidade de que a menina seja alfabetizada.

A expectativa agora é pelo impacto que o Livox poderá ter para as 15 milhões de famílias brasileiras que contam com pessoas que não falam devido a problemas cognitivos ou motores, em decorrência de Autismo, Paralisia Cerebral e Esclerose Múltipla, além de  sequelas causadas por AVC e Traumatismo Crânio-Encefálico.

Para conhecer o LIVOX, acesse o link: http://www.agoraeuconsigo.org/

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog www.meunomenai.com

Baseado em entrevista do analista Carlos Pereira para Blog do Tas.

Para ler a entrevista na íntegra, acesse o link: http://blogdotas.terra.com.br/2013/09/03/a-historia-do-livox-o-incrivel-aplicativo-verde-amarelo-do-pai-da-clara/