Bibliotecas dos CEUs precisam romper barreiras para ampliar público, defende pesquisadora da USP

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Moradora da periferia paulistana, a bibliotecária Charlene Kathlen de Lemos imaginava que bastaria uma biblioteca chegar a uma região mais extrema e pobre para que os moradores imediatamente passassem a frequentá-la. Não foi o que ela observou, entretanto, durante a pesquisa que deu origem à sua dissertação de mestrado na Escola de Comunicações e Artes da USP.

A pesquisa “Bibliotecas dos Centros Educacionais Unificados (CEUs): a construção de uma cultura comum” conclui que as bibliotecas dos CEUs permitiram que a leitura alcançasse locais onde antes não chegava, mas ainda precisam romper algumas barreiras e preconceitos para ampliar seu público.

Observando que para que os moradores se apropriassem dos livros e demais equipamentos culturais oferecidos pelas bibliotecas não bastava oferecer-lhes o acesso, a pesquisadora passou a refletir sobre o papel do bibliotecário nessas instituições específicas. Concluiu que, ali, os profissionais tiveram seus papéis ampliados, passando a pensar em atividades de ações culturais que não ignorassem os problemas sociais da comunidade, ao mesmo tempo em que a biblioteca servisse de espaço de reflexão e discussão para esses problemas.

Charlene Kathlen descreve que, se o público de uma determinada biblioteca era formado por crianças ainda não alfabetizadas, por exemplo, os bibliotecários usavam estratégias como brincar com multiblocos de brinquedos para que elas pudessem reproduzir a sua casa ou a casa onde gostariam de morar. Assim, o espaço da biblioteca era ocupado, e gradativamente a leitura, mesmo que ainda em sua forma oral, entrava no dia-a-dia da população.

A utilização da biblioteca em momentos de crise na comunidade também foi analisada pela pesquisadora. “Em um CEU localizado nas proximidades de uma favela, os pais enviavam as crianças para a biblioteca para protegê-las caso houvessem desabamentos de barracos nas épocas de chuvas”, ressalta.

A pesquisadora conclui que é ilusório acreditar que a biblioteca do CEU será a grande redentora dos excluídos. “Contudo, se a biblioteca não for esse espaço público democrático, garantindo a liberdade de informação e de cultura, integrada a realidade da cidade, ela estará fadada ao esvaziamento”.

Conheça o trabalho completo no link: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27151/tde-10012013-184342/pt-br.php

Mário de Andrade, inquieto e conectado

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Uma exposição dividida em módulos, com mais de 440 itens e cheia de gavetinhas que qualquer um – inclusive as inquietas crianças, para alívio dos pais sempre cheios de dedos – pode abrir e remexer à vontade. Assim é “Ocupação Mário de Andrade”, que será inaugurada para o público na próxima sexta-feira, dia 28 de junho, no Instituto Itaú Cultural.

Autor de “Macunaíma” e um dos idealizadores do Modernismo no Brasil, Mário de Andrade era também formado em canto e piano, e se empenhou para realizar concertos e apresentar ao grande público a música erudita de vanguarda. Com as limitações de sua época, inclusive técnicas, moveu mundos e fundos para conseguir esse feito. Utilizando todos os seus contatos – sim, Mário de Andrade já era uma pessoa conectada, antes mesmo do termo ser disseminado – conseguia discos emprestados para que as pessoas conhecessem compositores como Stravinski, uma das grandes novidades de meados da década de 1930. O Brasil não contava com orquestras aptas a executar as peças, e até mesmo o gramofone era raro. E assim nascia a Discoteca Oneida Alvarenga, existente até hoje no Centro Cultural São Paulo.

Funcionário público, sorriu e chorou ao exercer a função, lutando para difundir a literatura, sobretudo a infantil, não só na capital paulista, mas também pelo Estado. Visionário, concebeu parques infantis – os precursores do atual Centro Educacional Unificado (CEU) – nos quais as crianças em idade pré-escolar eram entretidas com atividades artísticas. Suas jardineiras, espécie de caminhão que levava livros e bibliotecários a espaços públicos da capital, levaram à criação de bibliotecas circulantes e especializadas.

Uma mente inquieta, brilhante, que até o dia 28 de julho poderá ser relembrada e homenageada, ao som da Pauliceia dos anos 1930, marcada pelo burburinho das pessoas, do telégrafo, do telefone e da máquina de escrever, como sua fiel Manuela, que conta com uma réplica na exposição.

Visite o site da exposição em http://www.itaucultural.org.br