Cultura, de produto a serviço

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Doutor e mestre em Ciências Sociais, além de mestre em Ciência Política, Direito Público e Filosofia, Frédéric Martel atuou em jornais e revistas, foi professor visitante nas universidades de Harvard e de Nova Iorque, além de ter lecionado no Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po).

Autor do livro Smart: o que você não sabe sobre a internet, Martel defende em sua obra que a cultura, que era um produto cultural, está se transformando em serviço. Nesse cenário, surgem o que o autor chama de “pequenos militantes da recomendação” (p. 319) – pessoas que, confiantes em seu próprio senso estético e capacidade de discernimento, assumem-se como responsáveis pela disseminação de suas opiniões.

O capítulo proporciona ao leitor uma das percepções mais claras da visão que o autor tem sobre a arena em que se transformou a internet. Da diversidade de entrevistados selecionados à leveza com que apresenta seus discursos, Martel é especialmente feliz na sua abordagem dos progressos da algoritmia, apontado o que ele considera o risco de, ao fornecer-lhe apenas o que ele já consome, enfeixar o usuário numa bolha, fortalecendo o vínculo com uma comunidade à qual este já usuário já pertence – e deixando de estimulá-lo a ampliar seus horizontes (p. 321). Diante desse risco e de outros desdobramentos que a oferta de cultura como serviço acarreta, um dos caminhos pelos quais a leitura pode ser conduzida leva à cena cibercultural contemporânea, explorada por teóricos diversos.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog Meunomenai. Permitida a reprodução desde que citada a fonte.

China digital, Smart e Alibaba

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A China Digital é uma das etapas que o pesquisador Frédéric Martel percorreu para escrever seu livro Smart: o que você não sabe sobre a internet. Para compreender o fenômeno do Alibaba, símbolo da web chinesa fundada em 1999 por Ma Yun, especialista em artes marciais e professor de inglês que ficou bilionário. “A imagem seria quase perfeita, e a história, uma notável sucess history, se o Alibaba não fosse um clone”, afirma Martel, referindo-se à mistura de negócios incorporada pelo site chinês conhecido como “o maior bazar do mundo” (p. 42). Mistura de Amazon, eBay e PayPal, o Alibaba ultrapassa em volume de negócios as três plataformas que lhe serviram de inspiração juntas, tornando-se um império que em 2014 passou a ser cotado na bolsa de Nova Iorque, “numa operação financeira que foi ao mesmo tempo a maior estréia de uma empresa tecnológica na história e o valor mais alto alcançado por uma empresa chinesa” (p. 42).

Para Martel, as cópias são a solução inventada pela China para resolver, simultaneamente, problemas existenciais e de criatividade. “Visitando a maioria dessas cópias numa dezena de grandes cidades chinesas, assim como suas filiais em Hong Kong, Cingapura e Taiwan, entendi que os chineses queriam ter acesso aos mesmos sites e serviços que os americanos, sem por isso depender deles” (p. 43). Por trás desse panorama, as instituições de ensino chinesas assumem um papel distinto da estimulação à inovação encontrada em Stanford, por exemplo. Wang Dan, presidente da New School for Democracy e célebre ciberdissidente chinês exilado em Taipé, onde está instalada a Universidade de Taiwan – palco do encontro assistido pelo autor do livro – acredita que a internet é uma ferramenta que contribui para o surgimento de uma sociedade civil na China. “Quando alguém participa das versões asiáticas do The Voice e vota por SMS num ídolo da televisão, está aprendendo a dar sua opinião”, defende Wang (p. 58).

 

Design Thinking: metodologia, ferramentas e reflexões

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Equilíbrio entre o raciocínio associativo, que alavanca a inovação, e o pensamento analítico, que reduz os riscos. Assim é apresentada a proposta do design thinking no livro “Design thinking & thinking design – metodologia, ferramentas e reflexões sobre o tema”, de Adriana Melo e Ricardo Abelheira. A obra apresenta as raízes do design no mundo, e descreve como surgiu o design thinking. “As ferramentas de ideação disponíveis na literatura são muitas”, afirmam os autores. “O tipo de desafio (gráfico, produto, comunicação, interface, experiência navegação, serviço…) vai naturalmente apontar apontar qual técnica de ideação aplicar”.

O livro destaca algumas diferenças do mundo corporativo na atualidade: “antes as empresas agiam reativamente aos cenários e eram avessas ao risco. Hoje precisam de intraempreendedores que antecipem necessidades ou oportunidades”. Apresentando resultados de pesquisas e paradigmas gestacionais de algumas empresas, os autores questionam: “Qual é o conjunto de conhecimentos necessários para o novo mundo?”.

Os autores também apresentam técnicas para “vender”  o design thinking para equipes, e ressaltam: “O empresário está realmente interessado no resultado que os investimentos em design podem gerar e descobrir de que forma a aplicação do design thinking vai canalizar a inovação, aumentando a competitividade”.

Texto escrito por Silvana Schultze para o blog Meunomenai. Permitida a reprodução desde que citada a fonte.

Teorias do trauma e literatura em saúde

As teorias do trauma histórico aparecem cada vez mais na literatura sobre saúde individual e comunitária, especialmente em relação às populações minoritárias raciais e étnicas e grupos que apresentam disparidades significativas em saúde. Como conseqüência desse rápido crescimento, a literatura sobre trauma histórico compreende abordagens de terminologia e pesquisa diferentes.

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O artigo “Trauma histórico como narrativa pública: uma revisão conceitual de como a história afeta a saúde atual”, uma revisão crítica, integra essa literatura para especificar mecanismos teóricos que explicam como o trauma histórico influencia a saúde de indivíduos e comunidades. “Argumentamos que o trauma histórico funciona como uma narrativa pública para grupos ou comunidades particulares que conectam experiências e circunstâncias atuais com o trauma para influenciar a saúde”, descreve N. V. Mohatt, um dos autores do estudo. “Tratar o trauma histórico como uma narrativa pública desloca o discurso de pesquisa longe de uma busca exclusiva de variáveis ​​causais passadas que influenciam a saúde para identificar como as experiências atuais, suas narrativas correspondentes e seus impactos na saúde estão conectados a narrativas públicas de trauma histórico para um particular grupo ou comunidade”.

O artigo também discute como a conexão entre trauma histórico e experiências atuais, narrativas relacionadas e impactos na saúde pode funcionar como fonte de sofrimento atual e resiliência.

Para conhecer o estudo, acesse o link: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24561774

Texto escrito por Silvana Schultze, para o blog Meunomenai. Permitida a reprodução desde que citada a fonte.

O poder dos quietos

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Um mundo que não pára de falar, e onde sobressaem aqueles que falam bem, principalmente em público. Como sobressair em meio a essa multidão?  “Mude a forma como você vê o mundo. Mude a forma como você se vê. Desvende o segredo dos introvertidos”. Assim é a apresentado o livro O poder dos quietos – como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar. A autora, Susan Cain, é apresentada como uma autêntica introvertida, o que talvez lhe confira sabedoria para analisar como a extroversão tornou-se o ideal cultural, e como extrovertidos e introvertidos pensam.

Dividido em quatro partes, o livro apresenta ainda um capítulo dedicado à educação de crianças quietas. É nesta seção que a autora apresenta sua teoria da típica má combinação entre pais e filhos, na qual pais extrovertidos tentam modificar a natureza de seus filhos quietos, na esperança de prepará-los para melhor enfrentar a vida. “Os pais precisam se distanciar de suas próprias preferências e ver como o mundo é aos olhos de seus filhos quietos”, defende Susan.

A autora discorre ainda sobre as imposições da indústria da propaganda sobre os padrões de comportamento, sobretudo das mulheres, aborda a diferença entre timidez e introversão e chama a atenção para o quanto pessoas introvertidas podem ser boas na resolução de problemas complexos.

Texto escrito por Silvana Schultze, para o blog Meunomenai. Permitida a reprodução desde que citada a fonte.

Crowdsourcing, produtividade coletiva e abordagem algorítmica

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Os sistemas Crowdsourcing são complexos não só por causa do enorme número de estratégias potenciais para atribuir tarefas aos trabalhadores, mas também devido às características dinâmicas associadas aos trabalhadores. É o que afirmam os autores do estudo “Gestão Algorítmica para Melhorar a Produtividade Coletiva no Crowdsourcing”, publicado em outubro de 2017.

Maximizar o bem-estar social em tais situações é conhecido por ser difícil, e os autores da pesquisa propõem o uso de algoritmos. “Ao analisar a dinâmica típica do sistema de crowdsourcing, estabelecemos um índice de desejabilidade do trabalhador simples e inovador, considerando em conjunto o efeito da reputação, da carga de trabalho e da motivação de cada trabalhador para trabalhar na produtividade coletiva”, descreve o estudo. Um estudo empírico de grande escala de três anos envolvendo 1.144 participantes em mais de 9.000 sessões mostra que o sistema supera as decisões de delegação de tarefas humanas em mais de 80% do tempo em condições comuns de carga de trabalho. “A abordagem e os resultados podem ajudar a criar sistemas de suporte à decisão de gestão algorítmica, altamente dimensionados e com base em dados, para crowdsourcing”, concluem os pesquisadores.

Para conhecer o estudo, acesse o link: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28970545

Texto escrito por Silvana Schultze, para o blog Meunomenai. Permitida a reprodução desde que citada a fonte.

Do explícito ao implícito: revisão e reescrita de Virgínia Woolf

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“Certa tarde, no começo de outubro, quando o tráfego se tornava agitado, , um homem alto veio a passos largos pela beira da calçada, levando uma dama pelo braço”, é trecho da obra The Voyage Out, de Virginia Woolf, um dos livros da autora analisados pela pesquisadora Maria A. Galbiati. Em seu livro “Do explícito ao implícito: o processo de revisão e reescrita em Melymbrosia The Voyage Out, de Virgínia Woolf”, Maria investiga a origem de Melymbrosia, romance de formação escrito em um contexto Pré-Guerra Mundial, no qual se destaca a viagem da personagem principal à América do Sul.

Segundo Thomas Bonnici, autor do texto de apresentação da obra, “no espaço entre MelymbrosiaThe Voyage Out, nasce a escrita de James Joyce, William Faulkner e Clarice Lispector”. A autora chama a atenção para marcas temporais e sobre as sensações expressas pelos personagens, como o tédio de Helen Ambrose durante sua viagem, e para a caracterização dos personagens e de seus papeis sociais. “Rachel Vinrace mostra-se próxima ao perfil da jovem mulher, educada conforme costumes do século XIX”.

Peter James Harris, autor do prefácio de “Do explícito ao implícito”, relembra que a composição de The Voyage Out foi um processo sofrido para Virginia Woolf, “marcado por diversas crises de insanidade mental, cujo percurso deixou um rastro de rascunhos e versões inacabadas, entre os quais  Melymbrosia, completado em 1912, mas nunca publicado durante a vida de Virginia Woolf”.