Cultura, de produto a serviço

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Doutor e mestre em Ciências Sociais, além de mestre em Ciência Política, Direito Público e Filosofia, Frédéric Martel atuou em jornais e revistas, foi professor visitante nas universidades de Harvard e de Nova Iorque, além de ter lecionado no Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po).

Autor do livro Smart: o que você não sabe sobre a internet, Martel defende em sua obra que a cultura, que era um produto cultural, está se transformando em serviço. Nesse cenário, surgem o que o autor chama de “pequenos militantes da recomendação” (p. 319) – pessoas que, confiantes em seu próprio senso estético e capacidade de discernimento, assumem-se como responsáveis pela disseminação de suas opiniões.

O capítulo proporciona ao leitor uma das percepções mais claras da visão que o autor tem sobre a arena em que se transformou a internet. Da diversidade de entrevistados selecionados à leveza com que apresenta seus discursos, Martel é especialmente feliz na sua abordagem dos progressos da algoritmia, apontado o que ele considera o risco de, ao fornecer-lhe apenas o que ele já consome, enfeixar o usuário numa bolha, fortalecendo o vínculo com uma comunidade à qual este já usuário já pertence – e deixando de estimulá-lo a ampliar seus horizontes (p. 321). Diante desse risco e de outros desdobramentos que a oferta de cultura como serviço acarreta, um dos caminhos pelos quais a leitura pode ser conduzida leva à cena cibercultural contemporânea, explorada por teóricos diversos.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog Meunomenai. Permitida a reprodução desde que citada a fonte.

O poder dos quietos

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Um mundo que não pára de falar, e onde sobressaem aqueles que falam bem, principalmente em público. Como sobressair em meio a essa multidão?  “Mude a forma como você vê o mundo. Mude a forma como você se vê. Desvende o segredo dos introvertidos”. Assim é a apresentado o livro O poder dos quietos – como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar. A autora, Susan Cain, é apresentada como uma autêntica introvertida, o que talvez lhe confira sabedoria para analisar como a extroversão tornou-se o ideal cultural, e como extrovertidos e introvertidos pensam.

Dividido em quatro partes, o livro apresenta ainda um capítulo dedicado à educação de crianças quietas. É nesta seção que a autora apresenta sua teoria da típica má combinação entre pais e filhos, na qual pais extrovertidos tentam modificar a natureza de seus filhos quietos, na esperança de prepará-los para melhor enfrentar a vida. “Os pais precisam se distanciar de suas próprias preferências e ver como o mundo é aos olhos de seus filhos quietos”, defende Susan.

A autora discorre ainda sobre as imposições da indústria da propaganda sobre os padrões de comportamento, sobretudo das mulheres, aborda a diferença entre timidez e introversão e chama a atenção para o quanto pessoas introvertidas podem ser boas na resolução de problemas complexos.

Texto escrito por Silvana Schultze, para o blog Meunomenai. Permitida a reprodução desde que citada a fonte.

Pessoas em situação de sofrimento psíquico: projeto oferece oficinas de moda e de Teatro dos Oprimidos, entre outras


Crazy Fashion Day é um evento criado pelo Projeto Tear, serviço público de Saúde Mental que oferece oficinas de trabalho artesanal para pessoas em situação de sofrimento psíquico. Criado em 2003 em Guarulhos, São Paulo, o projeto é resultado de uma parceria entre a Prefeitura de Guarulhos, Associação Cornélia Vlieg e Laboratórios Pfizer.
Em maio de 2013 aconteceu o Primeiro Desfile de Moda do Crazy Fashion Day, no calçadão do centro de Guarulhos, onde foi apresentada a coleção de camisetas da Luta Antimanicomial 2014. E em 13 de dezembro do mesmo ano, aconteceu novo desfile, no Parque Mario Covas, na Avenida Paulista, com o tema “Pelos campos de Van Gogh”. Os trabalhos foram apresentados durante a Feira da Rede de Economia Solidária de São Paulo.
Em 2014, 120 usuários participaram das oficinas de Encadernação & Papelaria Artesanal, Marcenaria & Marchetaria, Serigrafia & Personalização, Tear & Costura, Velas & Sabonetes, Mosaico, Papel Reciclado Artesanal e Vitral que. Além de espaço de convivência, as oficinas proporcionam renda para os participantes, resultante da venda dos produtos e de bolsa-oficina. O projeto conta com loja aberta ao público, diariamente das 9h às 17h, em Guarulhos (Rua Silvestre Vasconcelos Calmon, 92), e também comercializa os produtos em feiras e bazares, fixos e itinerantes.
Além das oficinas de trabalho, o Projeto Tear oferece atividades complementares por meio de parcerias, como a do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, com o Programa Igual Diferente. Desde 2006, os participantes do projeto vem freqüentando cursos de desenho, fotografia, animação e escultura, entre outros. O objetivo é promover o desenvolvimento de uma linguagem pessoal artística dos participantes, ampliando seus canais de expressão e trocas sociais, contribuindo para sua inclusão social. Também são realizadas atividades esportivas e de Lian Gong, prática corporal terapêutica que une medicina preventiva e exercícios harmoniosos, com base em tradições milenares chinesas. Além de redução de ansiedade e depressão, a aplicação da técnica tem demonstrado, entre os participantes do Projeto, eficácia no tratamento de síndromes dolorosas nas articulações, tendões e disfunções dos órgãos internos, além de contribuir para a melhora da circulação sanguínea, equilíbrio da função do SNC (sistema nervoso central) e fortalecimento da constituição física e do sistema imunológico, bem como na elevação da auto-estima e na qualidade do sono.
Outra atividade desenvolvida no Projeto Tear é o Grupo de Teatro “Tecendo Cenas”, nascido em 2006, a partir do projeto Teatro do Oprimido na Saúde Mental, iniciativa do Centro de Teatro do Oprimido (CTO) do Rio de Janeiro, em parceria com o Ministério da Saúde – Coordenação de Saúde Mental e Secretaria de Saúde de Guarulhos. Por meio de técnica teatral criada pelo teatrólogo brasileiro Augusto Boal, são oferecidos aos participantes espaços de reflexão e diálogo, entre si e com trabalhadores e familiares. A principal técnica de Teatro do Oprimido utilizada pelo grupo é o Teatro-Fórum, espetáculo baseado em fatos reais, no qual personagens oprimidos e opressores entram em conflito de forma clara e objetiva, com o intuito de defender seus desejos e interesses. Neste confronto, o oprimido fracassa e o público é convidado pelo curinga (facilitador) a entrar em cena, substituir o oprimido e buscar alternativas para o problema encenado. Nas oficinas semanais no Projeto, além da criação de cenas, são trabalhados jogos e exercícios teatrais que visam a desmecanização do corpo e sentidos.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog www.meunomenai.com

Para conhecer mais sobre o Projeto Tear, acesse o link: http://www.projetotear.org.br/nosso_projeto.asp

O papel das redes sociais no combate ao racismo no Brasil

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Consciência da opressão histórico-política, orgulho do pertencimento a uma comunidade e sofrimento pelo preconceito foram os elementos que prevaleceram na fala dos membros da comunidade do Orkut intitulada Negros.

Criada em 2004, a comunidade foi objeto da dissertação de mestrado da pesquisadora Melissa Maria de Freitas Andrade, na Faculdade de Educação da USP. Com o objetivo de contribuição na identificação do papel das redes socais na construção de conhecimentos e ao desenvolvimento de iniciativas destinadas a combater o racismo no Brasil, a pesquisadora analisou os discursos sobre identidade negra em dois tópicos do fórum da comunidade voltados especificamente para a autodeclaração racial.

Segundo Melissa Maria de Freitas Andrade, a análise dos dados coletados mostrou que os discursos de identidade negra são construídos de modos diferenciados, mesmo que a comunidade invoque certa homogeneidade. “Além disso, foi possível constatar que as possibilidades de socialização da comunidade potencializam a construção coletiva de conhecimentos relativos à identidade do grupo”, ressalta.

Fonte: Universidade de São Paulo.

A linguagem da música

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A partir da análise de composições musicais de crianças bilíngues, a pesquisadora Débora Sousa França Affonso investigou o papel de aulas de música podem desempenhar na formação da identidade cultural de alunos matriculados em escolas de educação bilíngue. A contribuição da música para o processo de aquisição de linguagem também foi estudada.

Observando que as escolas de Educação Infantil bilíngues privilegiam o método de imersão, enquanto nas de Ensino Fundamental a opção é pelo enriquecimento, Débora Sousa França Affonso concluiu que, em função do uso de símbolos e potencial de comunicação, assim como pelo fato de ser conhecida por todos os indivíduos, a música é uma forma de linguagem, passível de interpretação subjetiva.

A dissertação, intitulada “Música e bilinguismo: como a identidade cultural das crianças pode se evidenciar em suas composições musicais”, foi defendida na Escola de Comunicações e Artes da USP . O trabalho apresenta ainda sugestões de atividades de música, tanto em português como em inglês, oferecendo conteúdos de linguagem musical, apreciação, escuta, composição e improvisação.

Fonte: Universidade de São Paulo.

O que pensam as crianças dos livros infantis

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Interessada na produção cultural infantil resultante do contato de crianças com livros infantis, a pedagoga e mestre em Educação Débora Perillo Samori resolveu investigar o assunto em sua dissertação de mestrado, na Universidade de São Paulo. O resultado é a dissertação “Infância e literatura infantil: o que pensam, dizem e fazem as crianças a partir da leitura de histórias? A produção de culturas infantis no 1º ano do Ensino Fundamental”.

Acompanhando um grupo de crianças do primeiro ano do Ensino Fundamental em escola municipal de São Paulo, Débora Perillo Samori observou e registrou o cotidiano do grupo, além de realizar entrevistas coletivas com as crianças.

Ao analisar os dados, a pedagoga concluiu que as crianças relacionam a literatura diretamente com suas vidas, fazendo comparações entre histórias e até criando novas interpretações para as ilustrações dos livros. Também brincam com a linguagem, e tratam os livros como objetos culturais.

A pesquisadora concluiu ainda que a organização do espaço e da rotina para acesso aos livros infantis são feitas e controladas pelos adultos, o que pode limitar a livre iniciativa das crianças. Ainda assim, obseva Débora Perillo Samori, os livros passam a ser disputados pelas crianças, gerando situações de conflito e negociação. “As crianças criam estratégias de compartilhamento dos livros, vivem conflitos e criam seus próprios critérios de escolha, compreendendo melhor os papeis sociais vivenciados nestas situações”.

Mário de Andrade, inquieto e conectado

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Uma exposição dividida em módulos, com mais de 440 itens e cheia de gavetinhas que qualquer um – inclusive as inquietas crianças, para alívio dos pais sempre cheios de dedos – pode abrir e remexer à vontade. Assim é “Ocupação Mário de Andrade”, que será inaugurada para o público na próxima sexta-feira, dia 28 de junho, no Instituto Itaú Cultural.

Autor de “Macunaíma” e um dos idealizadores do Modernismo no Brasil, Mário de Andrade era também formado em canto e piano, e se empenhou para realizar concertos e apresentar ao grande público a música erudita de vanguarda. Com as limitações de sua época, inclusive técnicas, moveu mundos e fundos para conseguir esse feito. Utilizando todos os seus contatos – sim, Mário de Andrade já era uma pessoa conectada, antes mesmo do termo ser disseminado – conseguia discos emprestados para que as pessoas conhecessem compositores como Stravinski, uma das grandes novidades de meados da década de 1930. O Brasil não contava com orquestras aptas a executar as peças, e até mesmo o gramofone era raro. E assim nascia a Discoteca Oneida Alvarenga, existente até hoje no Centro Cultural São Paulo.

Funcionário público, sorriu e chorou ao exercer a função, lutando para difundir a literatura, sobretudo a infantil, não só na capital paulista, mas também pelo Estado. Visionário, concebeu parques infantis – os precursores do atual Centro Educacional Unificado (CEU) – nos quais as crianças em idade pré-escolar eram entretidas com atividades artísticas. Suas jardineiras, espécie de caminhão que levava livros e bibliotecários a espaços públicos da capital, levaram à criação de bibliotecas circulantes e especializadas.

Uma mente inquieta, brilhante, que até o dia 28 de julho poderá ser relembrada e homenageada, ao som da Pauliceia dos anos 1930, marcada pelo burburinho das pessoas, do telégrafo, do telefone e da máquina de escrever, como sua fiel Manuela, que conta com uma réplica na exposição.

Visite o site da exposição em http://www.itaucultural.org.br