A influência do espiritismo em obra de Henry James

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“Os Inocentes”, escrito em 1898 por Henry James e também conhecido por “A volta do parafuso” já deu origem a filme de cinema, estrelado por Deborah Kerr, e ópera, em cartaz recentemente, durante curta temporada, em São Paulo, capital. Aparentemente simples, o segredo do sucesso da história certamente está no elemento “sobrenatural”, que pelas mãos habilidosas do escritor norte-americano e naturalizado inglês transformou-se em mais uma possibilidade de explorar o caráter dos personagens. O escritor foi influenciado, na criação dessa história, pelas crenças de seu irmão no espiritismo. Não fica claro, entretanto, qual é sua interpretação dos fatos que ele próprio inventou. Longe de ser uma falha, este é um dos elementos-chave da história, pois permite ao leitor a agradável tarefa de tirar suas próprias conclusões.

Na história, uma jovem é contratada para cuidar de um menino e uma menina órfãos, irmãos que não têm o menor convívio com o tio, único parente vivo de ambos. Ela logo percebe que o garoto foi expulso da escola, e embora o motivo esteja obscuro na carta escrita pelo diretor, pode estar relacionado aos supostos fantasmas que transitam pela casa. A jovem passa a ver os falecidos antigos funcionários da casa, embora a antiga empregada da casa, que a colocou a par da estranha história, e mesmo acreditando na história a ponto de ter medo, não os veja.

Receosa de que a presença dos fantasmas possa ser uma má influência para as crianças, a jovem insiste para que ambos admitam ver as aparições. Em sua mente, essa é a única forma de enfrentar o problema para resolvê-lo sem necessidade de incomodar o tio das crianças, a quem ela prometeu jamais importunar como condição para ser contratada.

As crianças negam ver os fantasmas, com diferentes reações: o menino com certa dose de sarcasmo, e a menina ficando doente e se recusando a voltar a ver a jovem cuidadora. Essas reações, principalmente os comentários dúbios do garoto, colocam o leitor em dúvida tanto em relação à saúde mental da jovem quanto em relação ao caráter das duas crianças.

Somente o leitor com alguma convicção no espiritismo, entretanto, interpretará a história conforme a doutrina: os fantasmas existem, sim, e são espíritos malignos que influenciam negativamente os dois irmãos.

Independentemente da crença de cada um, a abordagem de Henry James é excepcional no sentido de que não faz falta, em nenhum momento da história, um motivo concreto tanto para as atitudes das crianças quanto para as dos fantasmas e as da jovem. Todos seriam movidos por seu caráter, ou falta deste.

Para os crentes no espiritismo, é o caráter firme que leva a jovem a vencer os próprios medos, inclusive o de perder o emprego que precisa, para resgatar as crianças, ainda com caráter em consolidação, da influência dos espíritos, que carregaram para o mundo do pós-morte seus caráteres funestos, permanecendo cruéis a ponto de transitarem na dimensão dos vivos com as piores intenções.

E para aqueles que não acreditam ou questionam o espiritismo, há pureza do estilo de Henry James neste livro suficiente para algumas horas de boa leitura.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog meunomenai.com

A história de Ariel: autista, aos sete anos falou a primeira palavra; aos 13, a primeira frase. E aos 21, fala perfeitamente duas de suas vontades: comer pipoca e assistir “Comer, rezar, amar”

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Ariel tem 21 anos e é autista. Aos sete anos, falou pela primeira vez. Uma única palavra, mas que serviu para emocionar sua mãe, Ednah Lanah, que não se conformava com o prognóstico médico de que o filho jamais falaria. Ariel apresenta um quadro de extrema hiperatividade, e a mãe lembra que em função disso não conseguiu tratamento fonoaudiólogo em Ferraz de Vasconcelos, onde a família mora. Sem condições financeiras de custear um tratamento particular, Ednah arregaçou as mangas e iniciou sua própria terapia. Personalizada, e baseada na observação atenta e amorosa de cada reação do filho em seu dia-a-dia.

Tudo começou quando Ednah, ao perceber que Ariel ria quando as duas irmãs mais novas repetiam a frase preferida de um personagem de novela, passou a usar a mesma frase para referir-se a ele: “Eita Lelê!”. Repetiu, repetiu, até que um dia finalmente Ariel falou, ou como se lembra Ednah, gritou: “Eita!”.

Ednah não descansou, repetindo ainda mais a palavra – ao se referir aos personagens de TV, jogadores e times de futebol que Ariel gostava. Logo virou uma brincadeira, e até o sabonete usado na hora do banho virou “eita-sabonete”.

A brincadeira durou seis anos, e aos treze anos Ariel falou sua primeira frase. A emoção desta vez foi tão grande que Ednah nem conseguiu guardar qual foi a frase. A partir daí ele iniciou a fase da fala ecolálica, repetindo tudo o que a mãe falava, porém sem intencionalidade. Suas frases não estavam dentro de algum contexto, eram soltas. Pode-se dizer que naquele momento Ariel aprendera a falar, mas ainda era um ato mecânico. O processo de aprendizagem da linguagem, porém, havia começado, o que já era uma grande vitória, essencial para as próximas fases.

Aos poucos, vieram as primeiras perguntas: “Cadê a mamãe?”, e “O papai vai chegar de noite?”. Hoje, sua linguagem é praticamente normal, e apesar de certa dificuldade, consegue se fazer entender por pessoas com quem não convive diariamente. Pede pipoca quando deseja, por exemplo, e num sábado à noite comunica que vai assistir ao filme “Comer, rezar, amar”.

Mesmo seguindo sem terapia fonoaudiológica ou qualquer outro tipo, os progressos de sua fala continuam, e a articulação das palavras melhora a cada dia. Seu desenvolvimento motivou sua mãe, e hoje ela participa da ONG criada por outras duas mães de autistas, Suely Oliveira, presidente, e a amiga Jô. A ONG foi criada em Ferraz de Vasconcelos e reunirá profissionais especializados. A meta agora é conseguir um espaço próprio e recursos financeiros.

Nada que desanime Ednah Lanah. Quem já enfrentou tantas dificuldades – como a hiperatividade excessiva de Ariel, sua própria falta de conhecimento sobre autismo e as crises de agressividade que vez ou outra ainda acometem o filho, além de ter que conciliar os cuidados com o filho com os oferecidos às outras duas filhas menores – sabe que as vitórias diárias são suficientes para dar forças a quem tem uma grande luta pela frente.

Surpresas da hora do parto

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Quando estava grávida, ficava emocionada quando algumas pessoas, mesmo desconhecidas, e geralmente mais velhas, despediam-se de mim com a expressão: “Boa hora!”. Achava algo bonito de se dizer a uma grávida, afinal tudo que queremos é que o momento do parto seja algo especial, inesquecível, mesmo sabendo que vai, no mínimo, ser dolorido…

Com o avanço dos exames de pré-Natal, é como se a hora do parto fosse “estendida”, começando meses antes – por volta dos três meses, por exemplo, quando é feito o ultrassom morfológico, é como se fosse uma pequena antecipação, afinal naquele momento teremos uma indicação relativamente segura se o bebê apresenta ou não alguma malformação genética. Uma informação importante, que muitas mães preferem evitar saber, mas que não deixa de ser uma forma de se preparar caso exista, sim, alguma malformação.

A natureza humana, entretanto, é misteriosa, e insiste em, algumas vezes, revelar-se somente na Hora “H”, Assim, não é nada incomum que, no momento do parto, a mãe depare-se com alguma “surpresa”.

O que fazer diante dessa surpresa? Ser mãe, ora. Cada pessoa tem uma reação, e, principalmente, cada pessoa tem seu tempo. Tempo para aceitar, entender, agir. E, quando menos esperamos, o que parecia ser um problema enorme transformou-se numa simples característica, com a qual convivemos diariamente e que, na maioria das vezes, afeta mais as outras pessoas do que nós mesmos.