A utilização de uma caixa lúdica em processo terapêutico de crianças com Síndrome de Asperger pode ajudar na construção de vínculos e suprir carências de processo multiprofissional a longo prazo, sobretudo na rede pública. “Percebeu-se que o atendimento, adaptado às condições do ambulatório público, contribuiu para a capacidade de comunicação e de interação da criança, fato que aponta para a importância do debate sobre a psicoterapia psicodinâmica com esta população e formas de realizá-la”, destaca o estudo “Ludoterapia de criança com Síndrome de Asperger: estudo de caso”.

Os autores, Fernanda Pereira Horta Rodrigues, Maíra Bonafé Sei e Sérgio Luiz Saboya Arruda acompanharam o atendimento a um menino de 12 anos diagnosticado com Síndrome de Asperger e atendido no ambulatório de psicoterapia de crianças de um hospital público. Segundo os autores, faltam na literatura científica descrições e discussões acerca da psicoterapia psicodinâmica em crianças com diagnóstico específico de Síndrome de Asperger, embora possam ser citadas algumas referências sobre intervenções com indivíduos com autismo e transtornos globais do desenvolvimento em geral.

Para a pesquisa, foi usada a psicoterapia lúdica de orientação psicodinâmica. Os atendimentos psicoterapêuticos foram realizados por uma terapeuta participante de um curso de especialização em psicoterapias da criança, cujas atividades se estenderam por dois anos. As sessões eram semanais e duravam em torno de 45 minutos. “Neste ambulatório há situações em que é propiciado um espaço de acolhimento para os pais”, descreve o estudo.

O menino participante da pesquisa foi o terceiro e último filho do casal, e suas duas irmãs mais velhas já são casadas há algum tempo, com famílias próprias. Para poder seguir o tratamento psiquiátrico do filho, a mãe largou o emprego e mudou-se de cidade, residindo com o marido e o filho em bairro próximo do hospital, para o qual somente é necessário pegar uma condução. Atualmente o pai é funcionário público municipal e a mãe cuida da casa.

Não falou até os três anos de idade, apenas emitia alguns sons que só eram compreendidos pela mãe, que atendia seus pedidos. Com quatro anos, falava poucas palavras e ingressou na escola, sem se socializar com as outras crianças. Era agitado e desatento, mas mostrava bom desenvolvimento intelectual, e fez acompanhamento fonoaudiológico dos três aos nove anos.

Ao chegar para o atendimento psicológico, cursava a sexta série do ensino fundamental, e era chamado pelas outras crianças da escola de “louco”. Segundo sua mãe, escolhia crianças de idade inferior à sua para se relacionar, o que para ela não trazia vantagens. Mantinha um vínculo de amizade com apenas uma criança, que o acompanhava em todas as atividades, e tinha um relacionamento próximo com apenas uma professora, que havia lhe dado aula por vários anos e, todos os dias, ao encontrá-la, cumprimentava-a com um beijo. A mãe estranhava essa aproximação da parte dele e sempre chamava sua atenção. Com exceção desse colega e dessa professora, o menino não conseguia estabelecer relações sociais fora do núcleo familiar.

Em casa, tinha o hábito de criar inventos que eram levados para o hospital e ajudaram o terapeuta no momento do jogo, apesar de recusar-se a brincar com os brinquedos da caixa lúdica, dizendo que só mexia com os seus inventos. A partir daí, sua caixa lúdica foi reformulada, passando a ser chamada de a “caixa de inventos”, os resultados positivos começaram a aparecer.

A técnica da caixa lúdica, segundo o estudo, representa e simboliza o mundo interno do paciente, permitindo que a criança expresse suas fantasias, angústias, defesas psíquicas e sentimentos em geral por meio dos objetos presentes na caixa, de desenhos e brincadeiras.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog www.meunomenai.com

Para conhecer o estudo completo, acesse o link: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-863X2013000100121&lng=pt&nrm=iso