A indestrutibilidade do psíquico é superestimada? Essa é pergunta do pesquisador François Villa, psicanalista, professor na Universidade de Paris Diderot e autor do estudo “Mal-estar na civilização e desastre totalirário”. Segundo o autor, os traços mnésicos são indestrutíveis, enquanto os processos e os destinos de seus produtos são destrutíveis. “O psíquico pode ser atingido pela destrutividade, pela do mundo e por aquela de que é portador”, ressalta.

O estudo destaca ainda que as condições de possibilidade do psíquico, das quais a cultura faz parte, podem ser destruídas ou alteradas, e questiona: “Não é incrível que demos seguimento à tarefa psicanalítica como se a onda da irrupção do terror e da barbárie na cultura não tivesse abalado as quatro paredes de nossos consultórios?”.

Segundo o autor, não apenas não chegamos a saber qual a extensão da transformação dos espíritos e das mentalidades sob os regimes totalitários, como também não sabemos até que ponto nosso espírito e nossa mentalidade são a descendência direta de tal transformação. “Essa transformação teria sido apenas transitória, efêmera?”, pergunta. “Será que vamos rejeitar sem hesitação a ideia de uma transformação irreversível e a hipótese de que a regressão que favoreceu a instauração do regime nazista tanto quanto a tornou possível, atingiu um ponto que favorece o retorno de alguma coisa que nunca tinha existido?”.

Atentando para a possibilidade de exagero desse questionamento, o autor sugere a reflexão acerca dos ideais culturais após o cataclismo que teve como consequência a decomposição e o desmembramento tanto do projeto civilizador quanto da personalidade psíquica.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog www.meunomenai.com