Identificar casos de violência contra crianças e adolescentes é uma ação complexa, sobretudo quando práticas de castigo são aceitas como formas de educar e assunto particular, restrito ao interesse familiar. Fonoaudiólogos, que atendem um grande número de pacientes com deficiência, muitas vezes se deparam com a difícil decisão de denunciar ou buscar apuração em caso de suspeita de violência contra seus pacientes. “Estudos mostram que crianças com problemas de comunicação são mais vulneráveis ao abuso e/ou negligência decorrentes das dificuldades de comunicação, o que requer do fonoaudiólogo um olhar mais atento para a identificação dos casos de violência infanto-juvenil para, assim, poder adotar a melhor conduta e saber as origens reais das alterações da saúde geral do paciente”, afirmam os pesquisadores Raquel Moura Lins Acioli, Maria Luiza Carvalho de Lima, Maria Cynthia Braga, Fernando Castim Pimentel e Adriana Guerra de Castro.

Autores do estudo “Violência intrafamiliar contra crianças e adolescentes: identificação, manejo e conhecimento da rede de referência por fonoaudiólogo em serviços públicos de saúde”, eles descrevem o perfil e a conduta de 89 fonoaudiólogos de redes pública, filantrópica e privada conveniada com o SUS, diante dos casos suspeitos e/ou confirmados de violência contra crianças e adolescentes.

O fonoaudiólogo, segundo os autores, pode contribuir para a identificação dos casos de violência, estando atento, por exemplo, às lesões ou cicatrizes na pele, particularmente aquelas localizadas na região da cabeça e pescoço, atingidos com maior frequência (cerca de 70%).

Mais de 40% dos participantes da pesquisa atenderam casos suspeitos e/ou confirmados de violência, sendo a violência física a mais freqüente. Dos 70 casos relatados, apenas dois foram denunciados aos órgãos competentes. “Muitos profissionais, mesmo aqueles capacitados, temem a represália dos agressores, razão pela qual não notificam os casos de violência”, ressaltam.

O reduzido número de notificações de violência é ainda explicado pelos pesquisadores como resultado da pouca informação dos fonoaudiólogos sobre as medidas a serem tomadas, o que sugere a necessidadede capacitação profissional para uma melhor identificação e conduta frente aos casos de violência.

Os pesquisadores destacam que, ao contrário de outras áreas no campo da saúde, existe uma escassez de trabalhos que retratem a conduta do fonoaudiólogo diante dos casos de violência intrafamiliar. “Tal fato é de fundamental importância, uma vez que esse profissional trabalha com crianças de risco, em sua maioria, por apresentarem distúrbios da comunicação humana, deficiências e problemas neurológicos”.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog www.meunomenai.com

Para conhecer o estudo completo, acesse o link: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-38292011000100003&lng=pt&nrm=iso