“Por que um programa de altas habilidades/superdotação tem ampla predominância de meninos, quando as meninas são maioria no total de matrícula do ensino regular?”. Essa é a pergunta dos pesquisadores Ana Paula Poças Zambelli dos Reis e Candido Alberto Gomes, que coletaram dados de 16 educadores do Programa de Atendimento ao Aluno com Altas Habilidades/Superdotação de uma rede escolar pública urbana.

A partir da análise dos dados de alunas e alunos participantes das salas de recursos deste programa, os pesquisadores investigaram os critérios para identificar e encaminhar esses alunos. Foram feitas entrevistas com os professores, que também preencheram formulários com as características e/ou comportamentos que podem ser evidenciados nos alunos e nas alunas identificados como superdotados. “A análise revelou que a subestimativa dos talentos femininos ocorre na seleção e na indicação de discentes pelos professores do ensino regular, quando as meninas são vistas pelas lentes de estereótipos, com a internalização de imagens de inferioridade pelas/os próprias/os professoras/es, em ampla maioria mulheres”.

Os pesquisadores destacam que o que poderia ser uma vantagem para as meninas – o alto número de educadores do gênero feminino educando alunos do mesmo gênero – acaba beneficiando os meninos, em função da repetição de um padrão cultural. Esse padrão cultural que desfavorece as meninas fica evidente nas falas de professoras que participaram da pesquisa. Enquanto uma professora afirma que “A gente (as mulheres) é ensinada a valorizar, a enxergar mais o homem, e a gente termina repetindo esse padrão”, a outra completa: “Eu acho que o menino é mais autorizado a se expor. A menina não, tem que ser mais quietinha, mais educadinha”, afirma, e continua: “Se ela (a menina) se expõe muito, é muito “saidinha”, é muito exibida – isso é malvisto”.

 O menino, segundo a análise dessa professora, é visto como inteligente quanto apresenta esse comportamento “saidinho”. Além disso, as falas dos professores deixaram claro que, uma vez que o comportamento exemplar é esperado das meninas, quando uma aluna apresenta características de superdotação, como aplicação e comprometimento com os estudos, isso é visto como natural, e não excepcional.

A pesquisa, intitulada “Práticas pedagógicas reprodutoras de desigualdades: a subrepresentação de meninas entre alunos superdotados”, sugere uma reflexão acerca dos estudos sobre as relações sociais de gênero e suas implicações na área da educação, em especial sobre a educação de alunas com altas habilidades. Conclui, ainda, ser necessária uma mudança de atitudes que envolvem a formação dos profissionais que atuam na área. Essa mudança, apontam os pesquisadores, deve ocorrem também nas orientações dadas aos professores do ensino regular, responsáveis pela indicação, e a reestruturação/redefinição dos critérios de seleção desses alunos e alunas, visando a uma melhor adequação da porta de entrada do Programa, com o fim de atender, de forma igualitária, a ambos os gêneros. “Caso contrário, profissionais pouco preparados continuarão a abrir a porta para uns e fechá-la para outras”.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog www.meunomenai.com

Para conhecer o estudo completo, acesse o link: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2011000200013&lng=pt&nrm=iso