Professor surdo ensinando libras em curso superior de Vitória, ES: alunos compreendem aspecto cultural da deficiência


 “Uma coisa que me chocou uma vez foi que eu ouvi uma pessoa dizendo que tem orgulho de ser surdo”, afirmou uma aluna do curso de licenciatura em Pedagogia. A declaração, que para alguns demonstra preconceito, na verdade é parte do reconhecimento de que a deficiência auditiva não reduz a capacidade de ninguém. “Eu confesso que agora entendo a questão cultural de libras”, afirma a aluna. Matriculada no curso de licenciatura em Pedagogia de uma instituição de ensino superior em Vitória, Espírito Santo, a aluna e sua turma receberam aulas de libras do professor Davi, deficiente auditivo.

Assim como parte dos alunos que receberam aulas do professor Davi na mesma instituição, matriculados nos cursos de Letras e Ciências Biológicas, a aluna participou da pesquisa “Apropriação de conhecimento sobre libras em cursos de licenciatura: professor surdo e alunos ouvintes”. O objetivo era analisar as formas de interação entre o professor surdo e os alunos ouvintes.

As autoras do estudo, Ivone Martins de Oliveira, Fernanda de Araújo Binatti Chiote e Keli Simões Xavier, descrevem que, durante o acompanhamento das aulas ministradas pelo professor Davi, foi possível perceber a pouca familiaridade dos alunos com pessoas surdas. No início, alguns alunos chegaram a “testar” a deficiência auditiva do professor, fazendo perguntas a ele em voz alta quando ele estava de costas para a turma. O objetivo era ver se ele de fato não ouvia. Em outra ocasião,uma aluna passou a ouvir música alta no celular durante a aula. Ao ser repreendida por uma colega, que definiu a atitude como falta de respeito com o professor, respondeu que o professor não poderia se importar porque não escutava a música.

Outro obstáculo enfrentado foi fazer com que os alunos entendessem que libras são uma língua, e não uma forma de comunicação alternativa. Muitos enfrentaram dificuldades para aprender o idioma porque estavam presos à estrutura do idioma português. Em conseqüência disso, a interação com o professor foi prejudicada, e os alunos optavam por fazer perguntas e colocações por escrito, mesmo já tendo avançado no aprendizado de libras. Alguns relataram ainda que fizeram menos perguntas do que teriam feito se o professor fosse ouvinte.

Apesar disso, uma grande parte dos alunos reconhece a importância do conhecimento de libras na sua formação como educadores, e as pesquisadoras concluem que o resultado da experiência com o professor foi positivo, principalmente no sentido de diminuir o preconceito: ao final da pesquisa, entre outras coisas, alunos afirmaram que passaram a enxergar a pessoa surda como “uma pessoa igualzinha” a eles.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog www.meunomenai.com

http://periodicos.ufes.br/educacao/article/view/5381/3977

1 thought on “Professor surdo ensinando libras em curso superior de Vitória, ES: alunos compreendem aspecto cultural da deficiência”

  1. Ninguém melhor para ensinar libras do que alguém que usa ela no dia-a-dia uma pessoa com deficiencia auditiva, é o melhor professor que se pode ter para esse idioma, preconceito é normal, mas esses alunos deveriam ter consciência de que ele ali era o mestre e mesmo não ouvindo, era necessário respeito.

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