Canis familiaris: nome científico para cão doméstico. Quem tem ou já teve um sabe o quanto eles são capazes de se comunicarem com os donos. Mais do que isso, parecem nos compreender antes mesmo do que muitas pessoas com quem tentamos expressar nossos sentimentos em palavras. Histórias a respeito de cães que percebem quando seus donos estão tristes, oferecendo carinho, são inúmeras.

Os cães também se comunicam com seus donos quando desejam ou precisam de algo: eu mesma tive uma cadela de estimação que chacoalhava as chaves enfiadas na fechadura da porta do apartamento quando queria dar uma voltinha para “ir ao banheiro”.

Disposta a analisar a comunicação dos cães com seus donos, a  pesquisadora Carine Savalli Redigolo levantou uma questão sobre a produção de sinais pelos cães para se comunicar com o ser humano: “os cães são capazes de se comunicar usando sinais direcionados a algum item de interesse no ambiente e com intenção de manipular seus tutores de tal forma a recebê-lo?”.

O interesse de Carine levou à tese de doutorado “Comunicação funcionalmente referencial e intencional nos cães (Canis familiaris)”, defendida no Instituto de Psicologia da USP. “Como intencionalidade não é possível de mensurar, alguns critérios operacionais podem ser considerados como requisitos para qualificar um sinal comunicativo como funcionalmente referencial e intencional”, explica a autora do estudo.

Carine Savalli Redigolo descreve esses requisitos: o sinal deve ser usado socialmente (para ser, antes de mais nada, considerado um sinal comunicativo) e influenciado pela direção da atenção visual do receptor. “Além disso, o emissor do sinal deve apresentar alternância de olhares entre o receptor e o objeto ou evento a ser comunicado e comportamentos de chamar a atenção”. Por fim, o emissor deve persistir e elaborar a comunicação quando a primeira tentativa de manipular o receptor falhar.

A pesquisadora encontrou evidências de que os cães usam comportamentos, especialmente a alternância de olhares entre o tutor e comida, como sinais comunicativos de uma maneira funcionalmente referencial e intencional. “Esse estudo não permite separar se os comportamentos adaptativos dos cães baseiam-se em mecanismos simples ou em uma teoria da mente do seu tutor”, ressalta. “Ainda assim, ele mostra nos cães propriedades dos comportamentos comunicativos similares aos dos pongídeos (família de macacos formada por orangotangos, gorilas e chimpanzés) que vivem em cativeiro”.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog http://www.meunomenai.com

Para ler o estudo completo, acesse o link: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47132/tde-16072013-122824/pt-br.php