Nos últimos tempos no Brasil, qualquer pessoa pode perceber que várias campanhas buscam promover a conscientização a respeito dos transtornos do espectro do autismo. É um esforço louvável, que ganhou reforços quando as grandes mídias passaram a abordar o assunto, e independentemente de qualquer crítica em relação ao teor dessa abordagem, traz esperança aos familiares, amigos e aos próprios portadores do transtorno.

A esperança maior é em relação à tolerância da sociedade para o diferente – sim, uma pessoa autista ou Asperger é diferente. Pode ser mais ou menos diferente, dependendo do grau do transtorno, do ambiente em que a pessoa é ou foi criada, dos tratamentos e terapias pelos quais passou. E a extensão dessa diferença depende, também, da própria pessoa. Pois uma pessoa autista ou Asperger continua sendo uma pessoa, com personalidade, gostos e vontades próprios. O transtorno não a define. O que a define é sua essência, que sofre influência do transtorno. Uma pessoa é alegre, e também autista. E não boba, porque é autista.  Pode acordar de mal-humor, e ser autista. E não necessariamente é agressiva, porque é autista.

Quem convive com portadores do transtorno sabe que é difícil manter os olhos abertos para ver a pessoa em primeiro plano, e não o autismo ou Asperger. Imagine-se, então, o quanto isso é difícil para quem nunca conviveu, ou apenas agora, com a entrada do assunto na grande mídia, começa a ouvir falar sobre autismo e Asperger.

Por isso, quem tem um familiar com o transtorno sabe que o caminho da tolerância ainda é longo. Pois uma coisa é assistir a um programa de televisão no domingo à noite e ficar sensibilizado, e outra completamente diferente é ter paciência com o filho adolescente do vizinho que insiste em tirar as roupas na área comum do prédio, por saber que os motivos que o levam a fazer isso são muito mais complexos e resistentes a qualquer castigo ou bronca que os pais possam dar.

Por isso, quanto mais atenção ao assunto, melhor. Quanto mais gente entender o que acontece na mente de uma pessoa com autismo ou Asperger – além dos cientistas, médicos e especialistas – melhor.  E assim avançamos para o dia em que, na reunião de condomínio, quando um vizinho mencionar a possibilidade de expulsão da família do jovem que tira as roupas em público, sua sugestão seja imediatamente descartada. Afinal, houve um dia, na história dessa mesma humanidade, que pessoas epilépticas foram queimadas vivas, acusadas de bruxaria.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog www.meunomenai.com