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As perguntas “Por que meu filho não fala?” e “Por que meu filho fala errado?” têm somente uma resposta: porque cada criança tem seu próprio tempo. Muitos pais já devem ter ouvido isso, e muitos devem ter continuado angustiados. Afinal, a comunicação é fundamental, e quando a criança começa a interagir por meio da conversa é incrível. Uma nova etapa do relacionamento com o filho começa. Portanto, nada mais natural do que querer que o filho comece a falar logo, de preferência de um jeito compreensível.

O problema é que esse “logo” às vezes demora. Já ouvi fonoaudiólogos falarem que, se aos quatro anos a criança ainda apresenta dificuldades de linguagem, é bom procurar um especialista. Mas eu mesma já vi crianças mais velhas que falavam, sim, bastante errado, mas com quem era perfeitamente possível conversar e que, principalmente, sabiam que falavam errado e não demonstravam o menor desconforto com isso. Sei também que quanto mais madura a criança estiver – e essa maturidade nem sempre é diretamente proporcional à idade – mais rápido e eficiente é o tratamento fonoaudiológico. Portanto, às vezes você coloca a criança cedo numa terapia porque quer resolver a questão logo, e ela acaba levando mais tempo do que você imaginava.

Eu mesma já vi meu filho ficar um ano fazendo fono sem praticamente apresentar nenhum resultado, e depois de voltar de férias de um mês, progredir a cada sessão o que a terapeuta esperava que ele tivesse progredido no ano anterior inteiro.

A grande questão é que muitos pais querem que o filho aprenda a falar direito antes de começar a ser zoado na escola… É possível que algum coleguinha tire sarro de seu filho porque ele fala errado? É possível e é provável. Se não for por isso, vai ser porque ele (ou ela) usa óculos, ou é gordinho(a)/magrinho(a). E a lista
de motivos só aumenta conforme a criança fica mais velha.

Felizmente hoje as (boas) escolas estão muito atentas a esse tipo de perseguição. Evito usar o termo bullying, porque no meu entendimento aplica-se a algo radical. E sabemos que as pequenas zoeiras muitas vezes vêm dos amigos mais próximos, que logo completam: “É brincadeira…”

De qualquer forma, coloco a seguir uma breve explicação sobre como as crianças começam a falar, feita pelo fonoaudiólogo Jaime Luiz Zorzi, autor do livro “Aquisição da linguagem infantil”, da Editora Pancast (1993). O livro fala sobre o desenvolvimento e alterações da fala, além da terapia indicada, e entre outras coisas, o autor faz uma relação do ato de brincar, ou como ele chama, condutas simbólicas/representativas, com a formação das imagens mentais da criança e a aquisição da fala propriamente dita.

Vale a pena citar o autor: “(…) a certa altura do desenvolvimento da criança começamos a observar determinados comportamentos que facilmente identificamos como brincadeira. Mas é uma brincadeira diferente, porque envolve um fazer-de-conta, um brincar ou jogar simbolicamente. Nesse mesmo período, que comumente corresponde ao decurso do segundo ano de vida, observamos também as primeiras palavras ou enunciados verbais ligados ao desenvolvimento da linguagem” (ZORZI, 1993, o. 13).

Portanto, observe seu filho brincando. Se perceber que ele ainda não faz isso, que tal fazer a proposta diretamente? Pode ser sobre uma história que ele ou ela conheçam, como a dos Três Porquinhos – “Faz de conta que eu sou o lobo mau. Quem você quer ser?” – ou uma situação que faz parte da rotina da criança – “Vamos brincar de dar banho no ursinho de pelúcia?”.